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Sete Lágrimas @ Igreja Matriz de Almodôvar: Almodôvar

TERRA
Diáspora, Vol. 2

DIGRESSÃO ESTREIA E LANÇAMENTO DO CD

Domingo, 18 Dezembro 2011
Igreja Matriz de Almodôvar
21h00
Entrada Livre


SETE LÁGRIMAS
Ensemble Associado da Temporada 2011/2012 do CCB

Filipe Faria, voz e co-direcção artística
Sérgio Peixoto, voz e co-direcção artística
Tiago Simas Freire, flautas
Sofia Diniz, viola da gamba
Hugo Sanches, tiorba, alaúde e viola de mão
Mário Franco, contrabaixo


Projecto financiado por:
SEC/DGARTES

Apoio:
DELTA
Câmara Municipal de Almodôvar
Câmara Municipal de Campo Maior


Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu (...)

José Luís Peixoto
in Nenhum Olhar, ed. Temas & Debates, Lisboa, 2000


Notas ao Programa
Rui Vieira Nery

As grandes navegações portuguesas dos séculos XV e XVI e o processo de expansão colonial subsequente abriram novos caminhos de comunicação e de intercâmbio cultural entre a Europa e o mundo, nos quais Portugal foi indiscutivelmente pioneiro. Não se tratou - importa sublinhá-lo sem equívocos - de um processo idílico e harmonioso de mero diálogo intercultural: foi marcado, como todos os colonialismos em todas as épocas da História da Humanidade, pela violência, pela agressão militar, pela ocupação territorial, pela exploração económica, pelo tráfico de escravos, pela intolerância religiosa. Mas desde cedo evidenciou, por outro lado, da parte dos colonizadores portugueses, uma curiosidade pela diferença cultural que contrasta com o hermetismo das matrizes civilizacionais de outros imperialismos europeus posteriores, como o francês, o holandês, ou em particular o britânico. A elevada taxa de miscigenação étnica que desde logo marcou as sociedades colonias portuguesas, consequência prática, é verdade, de uma reduzida presença de mulheres europeias nas primeiras expedições, mas ao mesmo tempo sinal de um desejo menos reprimido pelo preconceito racial, foi acompanhada de uma vontade evidente de provar as cozinhas locais e os seus ingredientes exóticos, do fascínio pelos motivos decorativos dos tapetes, cerâmicas e porcelanas de cada região, da tentação de experimentar canções e danças com ritmos e melodias diferentes e sedutores. A dominação colonial portuguesa procurou, certamente, impor em cada território ocupado uma matriz idêntica à das práticas artísticas e culturais do Reino, em particular as associadas ao Catolicismo, mas não só soube adaptar essa matriz aos materiais específicos disponíveis em cada zona como não hesitou em incorporar em si mesma muitas das facetas das expressões artísticas com que se foi deparando, terra a terra, continente a continente. De todas as potências coloniais europeias, Portugal foi sem qualquer dúvida aquela em cuja Cultura se integraram mais influências asiásticas, africanas e sul-americanas, e o império colonial português revelou-se assim um espaço de intensa circulação, interacção e fusão de modelos culturais.
Esta predisposição para o cruzamento intercultural estava já, afinal, na própria essência das Culturas ibéricas, resultantes de séculos de sucessivos processos de fusão, primeiro entre modelos celtas e greco-romanos, depois entre padrões cristãos, árabes e judaicos. A experiência da miscigenação cultural estava-nos, bem vistas as coisas, na carga genética civilizacional, e a expansão marítima ter-se-á limitado, a este respeito, a alargar a gama dos potenciais ingredientes. Mas o que é certo é que quer na Metrópole quer nas várias colónias portuguesas assistimos, logo a partir das primeiras fases da chegada dos Portugueses, à emergência de práticas artísticas híbridas que traduziam um intenso diálogo, no terreno, entre as múltiplas tradições em presença - um diálogo sempre formatado, como é óbvio, pela hierarquia do Poder colonial mas surpreendentemente aberto a trocas e a aprendizagens mútuas. E é assim que no campo da Música, por exemplo, logo nos séculos XVI e XVII encontramos nos vilancicos de Igreja peninsulares ritmos ameríndios e afro-brasileiros, e que, nos séculos XVIII e XIX, os salões e teatros lisboetas são literalmente invadidos pelos Lunduns e Modinhas brasileiros, a que em breve se juntará o Fado - tudo isto com grande espanto dos viajantes estrangeiros, que encaram este hibridismo cultural como um simples fenómeno de decadência. Estas manifestações de cruzamento que chegam ao Reino são, por sua vez, a consequência dos processos de interacção cultural que têm lugar nas próprias colónias e que produzem localmente novos géneros de fusão na Música e na Dança que alargam, também aí, o espectro das práticas artísticas tradicionais das populações indígenas. E o que é de sublinhar é que estas trocas se processam não só ao nível das Músicas eruditas como atravessam também todo o espectro social - não há sector das sociedades coloniais do Império português que não seja tocado nas suas práticas e expressões artísticas por esta interacção.
Não admira, pois, que, muito para lá do fim da experiência colonial portuguesa, o espaço da lusofonia se continue a revelar um território tão fértil em expressões interculturais que dão testemunho desse convívio e desafio mútuo multi-seculares entre modelos vindos dos vários continentes, cujos resultados permanecem como práticas vivas nas tradições populares de cada região. O que o Sete Lágrimas nos propõe mais uma vez, neste seu álbum que é o segundo do projecto Diáspora, é uma viagem por repertórios escritos e orais, mais próximos ou mais remotos, de teor ora mais erudito ora mais popular, que reflectem esta vivência de seis séculos de partilhas artísticas intensas num mundo interligado pela primeira vez pelas caravelas portuguesas e marcado no decurso desse tempo longo por luzes e sombras, dores e alegrias, violência e paixão de que a Música dá testemunho. 



Nos cinco continentes
Rui Nabeiro
Cafés Delta

É com enorme prazer que a Delta Cafés se associa ao novo projecto “Terra (Diaspora, vol.2)” do consort Sete Lágrimas e à viagem pelos géneros musicais dos cinco continentes, de ontem e de hoje. 
"Terra" arrisca novas fórmulas interpretativas de repertórios populares e eruditos do século XVI ao século XX, do vilancico ibérico ao fado, numa vertigem experimental alimentada pela estética que o grupo foi construindo na última década, reconhecida nacional e internacionalmente. 
Brasil, Guatemala, México, Moçambique, Angola, Índia, Macau, Timor... viagem, caminho, peregrinação, terra, água, saudade...são estas as "terras" por onde se move este projecto. 
A associação da Delta Cafés ao consort de música antiga e contemporânea Sete Lágrimas, desde 2008, decorre do compromisso da nossa empresa em apoiar os valores maiores do panorama artístico Português e em contribuir para a valorização da nossa herança cultural.



Biografia resumida Sete Lágrimas

Sob a direcção artística de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, Sete Lágrimas é um dos mais inovadores consorts europeus, especializados em música antiga e contemporânea, que procura, a cada programa, o diálogo entre a ancestralidade e a contemporaneidade e explora a ténue fronteira entre a música erudita e as tradições seculares.
Fundado em 2000, em Lisboa, o grupo desenvolve uma intensa actividade concertística em Portugal e na Europa integrado nas principais programações e Festivais. Em 2007 o grupo inicia a sua discografia com a edição, pela etiqueta MU, de um projecto dedicado à música antiga europeia intitulado “Lachrimæ #1” (2007, **** jornal Público (PT) e jornal Diário de Notícias (PT)). No contexto de um projecto de edição com o apoio do Ministério da Cultura e de outras entidades públicas e privadas, Sete Lágrimas edita “Kleine Musik” (2008, **** International Record Review (UK), jornal Público (PT), jornal Diário de Notícias (PT), revista Time Out (PT) e Jornal de Letras (PT)), “Diaspora.pt” (2008, ***** Jornal de Letras (PT) e Revista Sábado (PT), **** jornal Público (PT) e jornal Diário de Notícias (PT)), “Silêncio” (2009, ***** jornal Diário de Notícias (PT)), “Pedra Irregular” (2010, ***** semanário Expresso (PT), **** jornal Público (PT) e jornal Diário de Notícias (PT)) e “Vento” (2010, ***** jornal Diário de Notícias (PT) e ****/2 jornal Público (PT)). Nestes projectos conceptuais originais de diálogo entre a música antiga e contemporânea, Sete Lágrimas encomenda e estreia obras de Ivan Moody (n. 1964), Andrew Smith (n. 1970) e João Madureira (n. 1971) e visita a obra de H. Schütz (1575-1672), Corelli (1653-1713), Melgaz (1638-1700), Seixas (1704-1742), Almeida (1702-1755), Machado (1590-1646) e a música erudita e popular da secular diáspora portuguesa e dos descobrimentos, bem como do eixo latino mediterrânico.
Em 2010 inicia, com grande sucesso, a internacionalização do seu trabalho a convite do Festival de Musica Antigua de Gijón e do Festival de Música Antiga de Úbeda y Baeza (Espanha), e é reforçada a internacionalização da distribuição da sua discografia na Europa, Israel e EUA, bem como na maior plataforma on-line, iTunes.
Em 2011 destaca-se a estreia mundial da encomenda a José Luís Peixoto (n. 1974) e João Madureira da obra “Lamento” integrada no Festival das Artes de Coimbra e o lançamento do seu sétimo CD “Terra”, o segundo volume do projecto Diáspora. Este projecto é apresentado, em estreia absoluta, na Temporada do Centro Cultural de Belém (CCB). Reforça, no mesmo ano, a sua presença internacional com a digressão dos projectos “Mediterrae” na Bulgária, Itália, Malta, “Donde tenguo el amor” em Macau (XXV International Music Festival) e “Nana, nana” em Espanha (Madrid).
Na temporada 2011/2012 destacam-se os concertos da digressão internacional do projecto “Terra” a Itália (Rovereto e Bolzano) e Áustria (Innsbruck) e um conjunto de três concertos – sob o estatuto de Ensemble Associado da Temporada do Centro Cultural de Belém (CCB) – com o título genérico “Tríptico da Terra”: “Terra”, “Vento” e “Pedra” e os convidados Mayra Andrade, António Zambujo e Maria Cristina Kiehr. Na mesma Temporada apresenta ainda “En tus brazos una noche” no Festival Dias da Música.

NOTAS DE IMPRENSA (Selecção: Crítica da discografia)

Lachrimae #1 (2007)
“L’atmosphére qui domine évoque une poignante méditation déclinée selon différents modes, d’une œuvre à l’autre. (...)”, Jean-Luc Bresson, magazine Le Jouer de Luth, (2007); “[...] Combinação interessante de obras [...] e interpretações de bom nível”, Bernardo Mariano, jornal Diário de Notícias (2007); ““De chorar por mais (…) o resultado final é, sem dúvida, de muita qualidade.”, Pedro Boléo, jornal Público (2007)

Kleine Musik (2008)
“The multiple intersections blaze up into a delicately powerful coalescence. (…) Tenors Filipe Faria and Sérgio Peixoto (…) sing with lightness, clarity and a great deal of expressive power (…)”, Robert Levett, International Record Review (2009); “Kleine Musik feature some of the finest singing I have heard for a long time. (…) The three singers, soprano Ana Quintans and tenors Filipe Faria and Sérgio Peixoto are suberb.”, Monica Hall, The Lute Society Magazine (2009; “Desafio ganho, na medida em que o acerto, beleza e propriedade das vozes, o ambiente das linhas instrumentais por trás e o contraste estabelecido entre as linguagens barroca e moderna funciona muito bem”, Bernardo Mariano, jornal Diário de Notícias (2008); ““Depois de uma estreia discográfica auspiciosa com Lachrimæ #1, o agrupamento Sete Lágrimas acaba de lançar mais uma gravação de grande consistência artística e conceptual.”, Cristina Fernandes, jornal Público (2008); “O conjunto dá origem a um dos mais belos discos de edição nacional, surgidos nos últimos anos. (…) disco, (…) único e magnifíco.”. Maria Augusta Gonçalves, Jornal de Letras (2008); “O resultado é um diálogo admirável”, revista Time Out (2008);

Diaspora.pt (2008)
“[Diaspora es] un repaso geográfico-musical excepcionalmente rico y diverso. (…) Si a esto último unimos la magnífica instrumentación e interpretación vocal tenemos una valiosa muestra del buen hacer musical portugués de este momento. (…) Un gran descubrimiento veraniego.“ Miguel Angel Pérez Martín, revsita Doce Notas (ES) (2011); “A obra resultante propõe uma belíssima viagem no tempo e no espaço (…) Uma prenda inestimável!” Jorge Lima Alves, semanário Expresso (2008); “Um agrupamento português ombreia com prestigiados grupos de música antiga internacionais. Finalmente! (…) este projecto artistico (…) é uma celebração musical delirante, feita com puro deleite”, Rui Pereira, jornal Público (2009); “Mais de cinco séculos de diáspora (…) e o cuidado do projecto Sete Lágrimas (...) podem fazer deste disco um dos melhores exemplos da «world music» e levar o conceito ao extremo”, Maria Augusta Gonçalves, Jornal de Letras (2009); ““Na linha de alguns discos recentes de Jordi Savall”, revista Time Out (2009); “Filipe Faria e Sérgio Peixoto são responsáveis por alguns dos mais belos concertos e discos dos últimos anos em Portugal!”, Paula Moura Pinheiro, Câmara Clara, canal televisivo RTP2 (2010);

Silêncio (2009)
“Num ensemble de intérpretes muito justo e homogéneo, a convidada Zsuzsi Tóth (soprano) revela-se uma evidente mais-valia neste projecto, pela beleza do timbre e precisão da intonação.”, Bernardo Mariano, jornal Diário de Notícias (2010);

Pedra Irregular (2010)
“(...) qualidade da música e da interpretação, ambas próximas dos padrões internacionais.”, Cristina Fernandes, revista 30 Dias (2010); ““Pedra Irregular” é uma aposta ganha (…), Cristina Fernandes, jornal Público (2010); “a qualidade da execução vence tudo (…) Não admira que os Sete Lágrimas tenham conseguido criar o seu próprio nicho num apertado panorama internacional (…) é apenas um exemplo do bom gosto que preside a tudo o que sai das cabeças deste Consort. Como dizem os americanos: “A Class Act!”, Jorge Calado, semanário Expresso (2010);

Vento (2010)
“A sedução contemplativa da obra deve (…) muito à inspirada interpretação dos Sete Lágrimas, onde sobressaem as vozes límpidas e expressivas de Filipe Faria e Sérgio Peixoto”, Cristina Fernandes, jornal Público (2011)