Sete Lágrimas @ Auditório Vita: Braga

Braga, 
27 Julho 2013
21h30
Auditório Vita
Música no Claustro IV

Entrada: 5€

Sete Lágrimas
Filipe Faria, voz
Sérgio Peixoto, voz
Tiago Matias, vihuela, guitarra barroca e tiorba
Rui Silva, percussão histórica



Ay que biviendo no byvo
Ay que no muero muriendo
Ay de mim que no mem tiendo
No soy libre ni cativo
Dichoso ny desdichado
Ny constamte ni mudado
Menos soy muerto ni bivo.
Com las penas que recybo
Bivo io triste muriendo
Ay de mim que no mem tiendo

Vilancico anónimo (séc. XVI)



Terra
(Diáspora)

Dorme, dorme meu menino, Canção de embalar tradicional (Portugal)
Porque lhoras moro, Filipe Faria (n. 1976) Sérgio Peixoto (n. 1974) s/ texto anónimo (séc. XVI) 
Alla se me ponga’el sol, Cantiga anónima (s. XVI)
Vai-t´embora passarinho, Canção de embalar tradicional (Portugal)
Canario, Gaspar Sanz (1640-1710)
Ko le le mai, Tradicional (Timor)
Minina dos olhos verdes, Vilancico anónimo (séc. XVI/XVII)
Ay luna que reluzes, Vilancico anónimo (séc. XVI)
Ciaccona, Francesco Corbetta (c.1615-1681)
Díme, robadora, Vilancico anónimo (séc. XVI/XVII)
Yemanjá ôtô/Uiê ôri rumba, Canto divindade popular (Brasil)
Dayénu, Canto judaico anónimo
Dic nobis Maria/Dalha den cima del cielo, Vilancico anónimo (séc. XVI)
Yamukela, Canto de ofertório (Moçambique/África do Sul)
Tarantella, Dança anónima (s. XVI)
Oiga el que ignora, Filipe da Madre de Deus (1626-?)
Olá zente que aqui samo, Vilancico negro anónimo (s. XVII)



Amores e desamores. Alegria e Tristeza. Encontros e despedidas... Um imenso itinerário interior. Porque, “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir” (Álvaro de Campos, Fernando Pessoa).
João Madureira


Para além de caravelas e de Boa-Esperança a relação de Portugal com o mundo mantém, historicamente, uma relação privilegiada com o Mar Mediterrâneo e as culturas, mais próximas ou mais distantes, de aquém e além mar. O eixo latino mediterrânico é, para além de uma memória política, uma memória colectiva de cheiros, sabores e sons. Entre os finais da Idade Média e o século XVII, a devoção religiosa, as praxis populares e a relação com o mundo e com a lusofonia no Sudoeste europeu, banhado pelo Mediterrâneo, esteve sempre em movimento e em viagem constante.
Filipe Faria


Notas ao programa
Rui Vieira Nery

As grandes navegações portuguesas dos séculos XV e XVI e o processo de expansão colonial subsequente abriram novos caminhos de comunicação e de intercâmbio cultural entre a Europa e o mundo, nos quais Portugal foi indiscutivelmente pioneiro. Não se tratou - importa sublinhá-lo sem equívocos - de um processo idílico e harmonioso de mero diálogo intercultural: foi marcado, como todos os colonialismos em todas as épocas da História da Humanidade, pela violência, pela agressão militar, pela ocupação territorial, pela exploração económica, pelo tráfico de escravos, pela intolerância religiosa. Mas desde cedo evidenciou, por outro lado, da parte dos colonizadores portugueses, uma curiosidade pela diferença cultural que contrasta com o hermetismo das matrizes civilizacionais de outros imperialismos europeus posteriores, como o francês, o holandês, ou em particular o britânico. A elevada taxa de miscigenação étnica que desde logo marcou as sociedades coloniais portuguesas, consequência prática, é verdade, de uma reduzida presença de mulheres europeias nas primeiras expedições, mas ao mesmo tempo sinal de um desejo menos reprimido pelo preconceito racial, foi acompanhada de uma vontade evidente de provar as cozinhas locais e os seus ingredientes exóticos, do fascínio pelos motivos decorativos dos tapetes, cerâmicas e porcelanas de cada região, da tentação de experimentar canções e danças com ritmos e melodias diferentes e sedutores. A dominação colonial portuguesa procurou, certamente, impor em cada território ocupado uma matriz idêntica à das práticas artísticas e culturais do Reino, em particular as associadas ao Catolicismo, mas não só soube adaptar essa matriz aos materiais específicos disponíveis em cada zona como não hesitou em incorporar em si mesma muitas das facetas das expressões artísticas com que se foi deparando, terra a terra, continente a continente. De todas as potências coloniais europeias, Portugal foi sem qualquer dúvida aquela em cuja Cultura se integraram mais influências asiásticas, africanas e sul-americanas, e o império colonial português revelou-se assim um espaço de intensa circulação, interacção e fusão de modelos culturais.

Esta predisposição para o cruzamento intercultural estava já, afinal, na própria essência das Culturas ibéricas, resultantes de séculos de sucessivos processos de fusão, primeiro entre modelos celtas e greco-romanos, depois entre padrões cristãos, árabes e judaicos. A experiência da miscigenação cultural estava-nos, bem vistas as coisas, na carga genética civilizacional, e a expansão marítima ter-se-á limitado, a este respeito, a alargar a gama dos potenciais ingredientes. Mas o que é certo é que quer na Metrópole quer nas várias colónias portuguesas assistimos, logo a partir das primeiras fases da chegada dos Portugueses, à emergência de práticas artísticas híbridas que traduziam um intenso diálogo, no terreno, entre as múltiplas tradições em presença - um diálogo sempre formatado, como é óbvio, pela hierarquia do Poder colonial mas surpreendentemente aberto a trocas e a aprendizagens mútuas. E é assim que no campo da Música, por exemplo, logo nos séculos XVI e XVII encontramos nos vilancicos de Igreja peninsulares ritmos ameríndios e afro-brasileiros, e que, nos séculos XVIII e XIX, os salões e teatros lisboetas são literalmente invadidos pelos Lunduns e Modinhas brasileiros, a que em breve se juntará o Fado - tudo isto com grande espanto dos viajantes estrangeiros, que encaram este hibridismo cultural como um simples fenómeno de decadência. Estas manifestações de cruzamento que chegam ao Reino são, por sua vez, a consequência dos processos de interacção cultural que têm lugar nas próprias colónias e que produzem localmente novos géneros de fusão na Música e na Dança que alargam, também aí, o espectro das práticas artísticas tradicionais das populações indígenas. E o que é de sublinhar é que estas trocas se processam não só ao nível das Músicas eruditas como atravessam também todo o espectro social - não há sector das sociedades coloniais do Império português que não seja tocado nas suas práticas e expressões artísticas por esta interacção.

Não admira, pois, que, muito para lá do fim da experiência colonial portuguesa, o espaço da lusofonia se continue a revelar um território tão fértil em expressões interculturais que dão testemunho desse convívio e desafio mútuo multi-seculares entre modelos vindos dos vários continentes, cujos resultados permanecem como práticas vivas nas tradições populares de cada região. O que o Sete Lágrimas nos propõe com o projecto Diáspora, é uma viagem por repertórios escritos e orais, mais próximos ou mais remotos, de teor ora mais erudito ora mais popular, que reflectem esta vivência de seis séculos de partilhas artísticas intensas num mundo interligado pela primeira vez pelas caravelas portuguesas e marcado no decurso desse tempo longo por luzes e sombras, dores e alegrias, violência e paixão de que a Música dá testemunho.


Sete Lágrimas
Biografia

Fundado em Lisboa, no ano 2000, por Filipe Faria e Sérgio Peixoto, Sete Lágrimas é um consort especializado em música antiga e contemporânea que assume o título e o carácter da inovadora colecção de danças do compositor renascentista John Dowland.

Profundamente dedicados aos diálogos da música antiga com a contemporaneidade bem como da música erudita com as tradições seculares, Filipe Faria e Sérgio Peixoto juntam às Sete Lágrimas músicos de diferentes horizontes musicais e enorme talento em torno dos seus projectos conceptuais animados por profundas investigações musicológicas mas também por processos de inovação, irreverência e criatividade em torno dos sons, instrumentário e memórias da música antiga.

Nestes projectos são identificáveis os diálogos entre a música erudita e a popular, entre a música antiga e a contemporânea e a secular diáspora portuguesa dos descobrimentos e o eixo latino mediterrânico convertidos em som através de uma fiel interpretação dos cânones da música antiga ou de uma aproximação a elementos definidores da música tradicional ou do jazz.

Sete Lágrimas colabora regularmente com músicos e solistas internacionais como María Cristina Kiehr (Argentina), Zsuzsi Tóth (Hungria) ou Ana Quintans (Portugal) e com músicos dos contextos tradicional, jazz e do mundo como Mayra Andrade (Cabo Verde), António Zambujo (Portugal) ou as Adufeiras de Monsanto (Portugal).

Desde a sua fundação, o grupo desenvolve uma intensa actividade concertística de mais de duzentos concertos, de onde se destacam: em Portugal (Centro Cultural de Belém 2009, 2011-2012, Fundação Calouste Gulbenkian, Festival Terras sem Sombra (2003-2010 como ensemble residente), Encontros de Música Antiga de Loulé, Festival de São Roque, Museu de Aveiro, Festival das Artes de Coimbra, Festival dos Capuchos, Festival Internacional de Música da Madeira, Festival Internacional de Música dos Açores, Festival Fora do Lugar, Festival de Leiria…), Bulgária (Sliven), Itália (Ravenna, Festival Internazionale W. A. Mozart a Rovereto), Malta (BirguFest), Espanha (Festival de Música Antigua de Gijón, Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza, Museo Nacional de Valladolid, Fundación Juan March/Madrid, Abulensis Festival Internacional de Musica…), Macau (Macau Internacional Music Festival), Suécia (Stockholm Early Music Festival), França (Festival Baroque de Sablé 2012), Bélgica (Gent Festival van Vaanderen), etc…

No contexto dos seus projectos de diálogo entre a música antiga e a contemporânea "Kleine Musik", "Silêncio" e "Vento", Sete Lágrimas (com a parceria da Arte das Musas) encomenda obras, especialmente dedicadas ao consort, aos compositores Ivan Moody, João Madureira, Andrew Smith e Christoph Bochmann. Em 2011 Sete Lágrimas apresenta, em estreia mundial, a encomenda ao escritor, vencedor do Prémio Literário José Saramago, José Luís Peixoto e ao compositor João Madureira da obra “Lamento”.

Em Portugal como no estrangeiro, as temporadas de concertos e a sua extensa discografia é consistentemente elogiada pela crítica e pelo público. Os seus títulos “Lachrimæ #1” (2007), “Kleine Musik” (2008), “Diaspora.pt: Diáspora, vol.1” (2008), “Silêncio” (2009), “Pedra Irregular” (2010), "Vento" (2011), “Terra: Diáspora, vol.2” (2011), "En tus brazos una noche” (2012) e "Península: Diáspora. vol.3" (2012) receberam o número máximo de estrelas (5 em 5), Escolha do Editor, Melhor do Ano, etc… nos principais jornais, rádios e revistas de Portugal. Internacionalmente destacam-se as críticas discográficas na International Record Review, Doce Notas, Goldberg, etc.. ou as críticas aos concertos na Europa e na Ásia.

Em 2008, 2011 e 2012 os três títulos do projecto Diáspora atingem o primeiro lugar do TOP de vendas das lojas FNAC. Em 2010, “Diaspora.pt” foi eleito no “Guia da Música Clássica” da mesma cadeia de lojas como “Discografia Essencial” e a carreira do Sete Lágrimas destacada na publicação “Alma Lusitana”.

Em 2011/2012 Sete Lágrimas atinge o estatuto de Ensemble Associado da Temporada do Centro Cultural de Belém (CCB).

Na presente temporada o consort tem agendada uma digressão internacional a Espanha (Valladolid), Noruega (Stavanger), Bélgica (Ghent e Bruxelas) e França (Lille), uma temporada de concertos em Portugal de onde se destaca o concerto do Festival de Música de Leiria com as convidadas Adufeiras de Monsanto, bem como o lançamento do seu décimo disco, dedicado às cantigas medievais de Martim Codax.

Sete Lágrimas tem o apoio da Secretaria de Estado da Cultura (Governo de Portugal), da Direcção-Geral das Artes e da Delta Cafés.

É representado pela produtora Arte das Musas e editado pela etiqueta MU Records.