Sete Lágrimas @ Auditório Vita: Braga

Sete Lágrimas
4/7/2015
21h30
Seminário de Braga

Filipe Faria, voz
Sérgio Peixoto, voz
Tiago Matias, vihuela, tiorba e guitarra barroca
Sofia Diniz, viola da gamba



O VENTO (OU A VIAGEM)
A poesia na "Missa de Pentecostes" de João Madureira e na tradição secular renascentista

I
O vento*...

Antiphona ad Introitum: O vento do espírito (João Madureira (n. 1971/Teixeira de Pascoaes (1877-1952))
Actus Pænitentialis: Kyrie (João Madureira)
Gloria (João Madureira)
Sequentia: veni Sancte Spiritus (João Madureira/José Augusto Mourão (n. 1947))
Alleluia (João Madureira)
Antiphona ad Offertorium: ____________ pega nos fios… (João Madureira/Maria Gabriela Llansol (1931-2008))
Sanctus (João Madureira)
Agnus Dei (João Madureira)
Postcommunio: As fontes (João Madureira/Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004))
Dimissio: Ama como a estrada começa (João Madureira/Mário Cesariny (1923-2006))
* "Missa de Pentecostes" de João Madureira (n. 1971)

II
...ou a viagem

Salió a la fuente Jacinta, Manuel Machado
Dalha den cima del cielo
Díme, robadora
Mis arreios son las armas
Porque lloras moro
Ay que biviendo no byvo
Con amores la mi madre
Triste vida vivyre
Dos estrellas le siguen, Manuel Machado


NOTAS AO PROGRAMA:

O vento (ou a viagem)
A poesia na "Missa de Pentecostes" de João Madureira e na tradição secular renascentista

"... mas não sabes de onde vem nem para onde vai" (Jo 3,8)
"Amores e desamores. Alegria e Tristeza. Encontros e despedidas… Um imenso itinerário interior. Porque, "Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir" (Álvaro de Campos, Fernando Pessoa).*
*João Madureira (compositor)

(...) Há uma (...) imagem, que irrompe numa passagem do Evangelho de São João: «O espírito sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai» (Jo 3,8). Contrariamente à experiência fusional, tão impressiva na imagem da efusão, somos agora como que impelidos, pelo imprevisível que caracteriza o Espírito, a uma experiência de diferenciação. O Espírito está aqui, e ali, mas está sempre além. Ele não se instala. Não se derrama. Não é uma posse. Se o recebemos, é ainda para que a indagação e a busca continuem. A experiência de diferenciação é uma iniciação à liberdade, que Deus não atropela, mas potencia. O Espírito é discreto, pois não se sobrepõe à dramática da nossa invenção permanente, nem suspende a indagação, os dilemas e os encontros da nossa consciência, mas dialoga com eles, iluminando-os e ampliando-os incessantemente. (...)
José Tolentino Mendonça, "Sobre as imagens do Pentecostes" in "Vento", Arte das Musas (MU0108/2010)

(...) Os cinco textos poéticos congregados nesta missa, que ganham em sentido e em gesto de oração quando cantados a par do Kyrie, do Gloria, do Alleluia, do Sanctus e do Agnus Dei, não perdem por isso a diversidade do mundo que trazem consigo, pelas paisagens que descrevem, pelos afectos que exprimem, pelo infinito que projectam, e sobretudo pela medida do humano que experimentam, conferindo, reciprocamente, à festa do Pentecostes uma riqueza acrescida, sediada no mais caro dom humano que é a fala.
Antes de mais, a paisagem e os seus lugares: o céu, o mar, a noite, a luz e o amanhecer, o jardim, o vento, a estrada; a face visível do mundo. Depois, a medida do infinito, feito de "torvelinho cósmico e profundo" (Pascoaes), de "luz cinzenta que borda o mar" (Mourão), de "fulgor" (Llansol), de "límpido esplendor" (Sophia), de "começo" (Cesariny, cit. adaptada). Um infinito feito da imanência que atravessa todos estes textos. Finalmente, na sua diversidade temática e gestual, estes cinco textos trazem consigo a voz que tanto são quanto buscam, a voz que caminha, incansável, na sua vocação de encontro e comunhão.
Cristiana Vasconcelos Rodrigues "Sobre os textos cantados" in "Vento", Arte das Musas (MU0108/2010)

Inspirados no "infinito feito de imanência" da poesia escolhida por João Madureira para a sua Missa de Pentecostes - encomenda da comunidade da Capela do Rato (Lisboa) apresentada em estreia mundial no dia 23 de Maio de 2010 e editada em disco pela editora Arte das Musas (MU108/2010) - Sete Lágrimas traz-nos um diálogo feito de música com a poesia do renascimento ibérico. Depois de "Diaspora.pt" (2008) e "Terra" (2011) - ambos dedicados à viagem pelos géneros musicais dos cinco continentes tocados pela cultura portuguesa nos últimos 500 anos - Filipe Faria e Sérgio Peixoto dedicam-se - em "Península" (2012) - a outras viagens e geografias. Aquelas em que o mapa-múndi se converte no mapa da vida, da emoção ou da experiência humana construída sobre o amor, a devoção, a afectividade, a alegria ou a tristeza. 

O programa deste concerto coloca em diálogo a poesia ibérica dos séculos XVI e XVII com música composta especialmente para o projecto por Filipe Faria e Sérgio Peixoto sobre textos anónimos dessa época e a Missa de Pentecostes escrita por João Madureira especialmente para o grupo, numa vertigem experimental alimentada pela estética que Sete Lágrimas foi construindo na última década, reconhecida nacional e internacionalmente. "Testemunhos de vários homens e épocas, visitando este tempo que é o nosso, num novo encontro com os maravilhosos Sete Lágrimas." (João Madureira).


BIOGRAFIA SETE LÁGRIMAS

Assumindo o nome da inovadora colecção de danças do compositor renascentista John Dowland (1563-1626), Filipe Faria e Sérgio Peixoto escolheram o mote que define as SeteLágrimas, consort fundado, em Lisboa, em 1999.
Profundamente dedicados aos diálogos da música antiga com a contemporaneidade bem como da música erudita com as tradições seculares, Sete Lágrimas juntam músicos de diferentes horizontes musicais em torno de projectos conceptuais animados tanto por profundas investigações musicológicas como por processos de inovação, irreverência e criatividade em torno dos sons, instrumentário e memórias da música antiga.
Nestes projectos são identificáveis os diálogos entre a música erudita e a popular, entre a música antiga e a contemporânea e entre a secular diáspora portuguesa dos descobrimentos e o eixo latino mediterrânico convertidos em som através tanto da fiel interpretação dos cânones interpretativos da música antiga como de uma aproximação a elementos definidores da música tradicional ou do jazz.
Desde a sua fundação, o grupo desenvolve uma intensa actividade concertística de mais de duzentos e cinquenta concertos em doze países da Europa e Ásia, de onde se destacam: Portugal (Centro Cultural de Belém 2009/2011/2012/2013/2014/2015, Fundação Calouste Gulbenkian, Festival Terras sem Sombra 2003-2010 (como ensemble residente), Encontros de Música Antiga de Loulé 2006/2015, Festival de São Roque 2008/2009/2012), Museu de Aveiro 2010/2012, Festival das Artes de Coimbra 2011, Festival dos Capuchos 2012, Festival Internacional de Música da Madeira 2010, Festival Internacional de Música dos Açores, 2010 Festival Fora do Lugar 2012, Festival de Leiria 2011/2013, Festival de Almada 2013, etc…), Bulgária (Sliven 2011), Itália (Ravenna 2011, Festival Internazionale W. A. Mozart a Rovereto 2012), Malta (BirguFest 2011), Espanha (Festival de Música Antigua de Gijón 2010, Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza 2011, Museo Nacional de Valladolid 2011/2013, Fundación Juan March/Madrid 2012, Villaviciosa 2012, Abulensis Festival Internacional de Musica 2012…), China (Macau Internacional Music Festival 2011), Suécia (Stockholm Early Music Festival 2012), França (Festival Baroque de Sablé 2012, Opera de Lille 2013), Bélgica (Gent Festival van Vaanderen 2012, Flemish Opera/Gent 2013, Bozar/Bruxelles 2013), Noruega (Stavanger Konzerthus 2013), República Checa (Prague Early Music Festival 2014), Luxemburgo (Philharmonie Luxembourg/Salle de Musique de Chambre 2014), etc...
Colabora, regularmente, com músicos convidados das áreas da música antiga como María Cristina Kiehr (Argentina), Zsuzsi Tóth (Hungria) ou Ana Quintans (Portugal) e da música tradicional, jazz e do mundo como Mayra Andrade (Cabo Verde), António Zambujo (Portugal) ou Adufeiras de Monsanto (Portugal).
No contexto dos projectos de diálogo entre a música antiga e a contemporânea “Kleine Musik”, “Silêncio” e “Vento”, Sete Lágrimasestreia obras, especialmente dedicadas ao consort, dos compositores Ivan Moody (Inglaterra), João Madureira (Portugal), Andrew Smith (Noruega) e Christopher Bochmann (Inglaterra) sob encomenda da produtora Arte das Musas, dirigida por Filipe Faria). Em 2011 Sete Lágrimas apresentou, em estreia mundial, a encomenda ao escritor, vencedor do Prémio Literário José Saramago, José Luís Peixoto e ao compositor João Madureira da obra “Lamento”.
Em Portugal como no estrangeiro, as temporadas de concertos e a sua extensa discografia é consistentemente elogiada pela crítica e pelo público. Os seus dez títulos “Lachrimæ #1” (MU0101/2007), “Kleine Musik” (MU0102/2008), “Diaspora.pt; Diáspora, vol.1” (MU0103/2008), “Silêncio” (MU0106/2009), “Pedra Irregular” (MU0107/2010), “Vento” (MU0108/2010) “Terra: Diáspora, vol.2” (MU0110/2011), “En tus brazos una noche” (MU0109/2012) e “Península: Diáspora. vol.3” (MU011/2013) e “Cantiga” (MU0113/2014) recebem frequentemente o número máximo de estrelas (5 em 5), Escolha do Editor, Melhor do Ano, etc, nos principais jornais, rádios e revistas de Portugal. Internacionalmente destacam-se as críticas discográficas na International Record Review, Doce Notas, Goldberg, etc.. ou as críticas aos concertos na Europa e na Ásia.
Em 2008, 2011 e 2012 os três títulos do projecto Diáspora atingem o primeiro lugar do TOP de vendas das lojas FNAC. Em 2010, “Diaspora.pt” foi eleito no “Guia da Música Clássica” da mesma cadeia de lojas como “Discografia Essencial” e a carreira do SeteLágrimas destacada na publicação “Alma Lusitana”.
Em 2011/2012 Sete Lágrimas é convidado para assumir o estatuto de Ensemble Associado da Temporada do Centro Cultural de Belém (CCB/Lisboa) tendo apresentado o “Tríptico da Terra” em três concertos esgotados.
A convite da rádio clássica RDP Antena 2 Sete Lágrimas foi, em 2014, o representante português no projecto europeu da UER/EBU Union Européenne de Radio-Télévision - EURORADIO Christmas Folk Music Project - emitido em 30 rádios de 28 países como a BBC Radio 3 ou a France Musique. A sua discografia integra regularmente as playlists das rádios clássicas de vários países europeus como Espanha (RNE Rádio Clásica), Inglaterra (BBC Radio 3), República Checa (Český rozhlas/Czech National Radio), Portugal (Antena 2/TSF), etc...
Na presente temporada o consort tem agendada uma série de concertos em Portugal (Sintra, Idanha-a-Nova, Lisboa, etc...). Ainda em 2015 o grupo associa-se a um projecto de edição da Arte das Musas, um livro com texto e ilustração de Filipe Faria dedicado ao tema da viagem.
Sete Lágrimas tem o apoio da Secretaria de Estado da Cultura (Governo de Portugal), da Direcção-Geral das Artes e da Delta Cafés desde 2003. É representado pela produtora Arte das Musas e editado pela etiqueta MU Records.