TODAS AS NOUTES PASSADAS

 

Conceito Original Filipe Faria Coreografia Carla Albuquerque /Ca.DA Companhia de Dança de Almada Música de Filipe Faria e Pedro Castro a partir de Diego Ortiz (c.1510-c.1570) Textosde Pero Meogo (s. XIII?), Cristóvão Falcão (c.1512- c.1557), D. Dinis (1261-1325), Airas Nunes (s. XIII) e Joam Zorro (s. XIII) Realização e Encenação Filipe Faria Performance Rita Pires bailarina Filipe Faria voz, percussões, ukulele, berimbau e iPad Pedro Castro flautas, charamelas, gaita de foles, duduk e iPad

 
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O espectáculo Todas as noutes passadas” é uma encomenda CCB/Fábrica das Artes e uma coprodução Rede Europeia Big Bang, financiada pelo Programa Europa Criativa da União Europeia.

 

© Carla Albuquerque/Arte das Musas 2017

Noite. Detrás das árvores vem uma música que me chama... é uma melodia antiga com mais de 400 anos... curta... grave... que se repete, repete, repete... e de tanto repetir acaba por fazer parte de mim... Sinto-a passar dos ouvidos para todo o corpo... para lá ficar... para poder ouvir agora outra melodia tão antiga como a primeira e outra tão nova como a noite passada... Repete e repete... Ouço uma voz... canta um poema com 700 anos mas que parece de hoje (entendo o que diz) e repete, também ela - meu amigo, meu amigo... Parece que fala de saudade ou de amor com os animais que habitam a floresta... com os cervos bravos que andam nas verdes ervas... Vejo os cervos ao longe... Repete e repete... Sei que estes sons são mesmo muito antigos mas estou a ouvi-los hoje, na noite, como se fossem de hoje... e são... já foram... claro que foram de hoje... sempre foram de hoje porque o som, como a noite, não tem tempo... Estão no meu corpo... na memória de cada bocadinho do meu corpo... Ouço e vejo ao longe instrumentos muito antigos - uns mais, outros menos - pedaços de madeira desta floresta... são flautas, charamelas, vielas, adufes... e uma luz fraca que vem de um... de um iPad? Sim... aqui, nesta noite, é mais um instrumento e daqui a pouco tempo será muito antigo... Sons de ontem, lá de muito atrás, que quase esquecemos (mas hoje, bem hoje)... e não esquecemos porque estão cá dentro, no corpo... em cada bocadinho... Todos vivemos hoje, esta noite... não ontem, nem amanhã...
— Filipe Faria, 2016

© Carla Albuquerque/Arte das Musas 2017

Pero Meogo (séc. XIII) - autor do primeiro poema cantado Enas verdes ervas - sugere um imaginário bucólico muito especial e introduz o cervo na lírica galaico-portuguesa medieval... o cervo bravo. As nove Cantigas de Amigo que se conhecem de Meogo - a totalidade da sua obra que sobreviveu até aos nossos dias - referem este animal da floresta, como símbolo do amor... Todas... Uma idée fixe... A linguagem poética expressa, simbolicamente, velhos ritualismos medievais mas que são, ao mesmo tempo, tão próximos dos de hoje... tão próximos do sereno imaginário infantil - que é de todos nós, se quisermos - feito de florestas encantadas, árvores que falam, feitos de "gosto de ti, gostas de mim?", Reis que cantam, animais que crescem e se escondem... feitos tanto do que é como do que podia ser...

"Todas as noutes passadas" começa a meio, como tudo começa, e acaba antes de acabar porque as noites não têm fim... Inspira-se nos princípios da lírica medieval: a dialética da repetição e da invenção. Reflete o gosto da época trovadoresca, no qual a invenção consiste na variação formal sobre temas conhecidos... Devido à sua imprecisão realista, centra-se nos sentidos, naquilo que é permanente e reaparece à luz de uma palavra evocadora (ou de um som), à luz do que seduz... uma palavra que conhecemos, um som familiar, a sensação de surpresa ante o inesperado...

© Carla Albuquerque/Arte das Musas 2017

Em 40 minutos a música corre para trás e para a frente 500 anos... os poemas, 200... Da floresta do século XIII espreitamos, por um instante, as noites do século XV, para depois regressar às palavras escritas por um Rei, a um baile debaixo das avelaneiras floridas ou às tranças de uma rapariga... Hoje podemos visitar todas as noites passadas...

A construção musical parte das mesmas premissas de repetição e variação formal como se construindo um cenário... Um cenário "natural" onde a música entra no corpo para lá ficar... O diálogo das vozes, dos instrumentos antigos de sopro, corda dedilhada e percussão e dos novos instrumentos e tecnologias - vistos hoje como instrumentos de consumo de conteúdos mas que são, também eles, instrumentos de criatividade, de invenção...- é a base sobre a qual construimos estes novos cenários encantados... a base para vivermos todas as noites passadas tão próximas do sereno imaginário infantil- de todas as infâncias (mesmo as dos avós que brincam ao faz de conta) - feito de... florestas encantadas... árvores que falam... feitos de "gosto de ti, gostas de mim?"... Reis que cantam... animais que crescem e se escondem... feitos tanto do que é... como do que podia ser...

Filipe Faria, Charneca de Caparica, 2016

 

Principais apresentações

Centro Cultural de Belém - CCB - Lisboa - 21 e 22 Outubro 2016 - Estreia Absoluta -ESGOTADO
Centro de Arte de Ovar - CAO - Ovar - 31 Janeiro 2017
Centro Cultural Raiano - CCR - Idanha-a-Nova - 2 Fevereiro 2017 - ESGOTADO
Festival Som Riscado - Loulé - 6 Abril 2017