Pro_
gramas

Sefarad: Canções Sefarditas em Ladino

Língua

Babel ou Quando falamos todos a mesma língua

Pro_
grammes

Sepharad: Sephardic Songs in Ladino

Língua*

*Language/Tongue

Babel or When we all speak the same language

PROJECTOS
PROGRAMAS DE CONCERTO

SEFARAD:
CANÇÕES SEFARDITAS
EM LADINO

CD PALAVRICAS D'AMOR (2017)
CD DE LA MAR (2016)

 

”De la mar” oferece uma selecção de canções sefarditas; estas foram remodeladas de maneira criativa, assumidamente contemporânea, pelo projecto Noa Noa, que procurou acentuar neste reportório a sua ligação à cultura ibérica. 

Canção é um termo genérico: de facto temos aqui, sobretudo, canções de amor; mas também duas canções de boda e um fragmento do romance narrativo La partida del esposo, iniciado pelo verso «Por qué llorax blanca niña». O adjectivo «sefardita» remete, num sentido estrito, para a diáspora dos judeus de origem ibérica: quer os muitos expulsos no final do século XV, quer os convertidos à força ao cristianismo ou seus descendentes, que abandonaram depois a Península para retomar a religião hebraica. Em suma, trata-se de canções tradicionais de uma população judaica geograficamente dispersa mas com raízes ibéricas comuns.

A língua destas canções é o «ladino» em sentido genérico (ou judeo-espanhol). Trata-se de um linguajar cuja base é o castelhano de c. 1500, mas que incorpora influências aragonesas e portuguesas, e também termos e expressões oriundas das línguas correntes nas áreas onde os sefarditas se estabeleceram (incluindo o árabe, o albanês, o servo-croata, o turco e o persa). Ocasionalmente, há até construções sintácticas decalcadas do hebraico. O «ladino», falado aindahoje por uma minoria de sefarditas, pronuncia-se frequentemente de maneira mais próxima do português do que do castelhano moderno, porque a sonoridade do castelhano, no Renascimento, se distinguia menos do português do que na actualidade. 

Os textos das canções chegaram até nós em múltiplas versões; como nem sempre os seus inícios coincidem, os estudiosos baptizaram os textos de circulação mais alargada com um título de referência: assim, «A la una yo nací» é uma versão de Las horas de la vida, e «Durme, durme» corresponde a La hermosa durmiente. Alguns dos poemas têm uma forma arcaica, de matriz medieval, mas a maioria segue as convenções da poesia ibérica do período moderno, com uso de quadras (por vezes expandidas por uma exclamação intercalar semanticamente neutra, como em «Hija mia, mi querida»). É no romanceiro que os arcaísmos são mais notórios. Porém, maior antiguidade formal, do tempo das cantigas d’amigo (c. 1200) ou anterior, têm as estrofes de dois versos pontuadas por um refrão curto, como em La galana y la mar; sendo também dessa época o paralelismo usado em «Avrix mi galanica», versão de Todos son inconvenientes. 

No que concerne à temática, a canção de boda remete para imaginários antigos e para práticas e expectativas sociais hoje completamente caídas em desuso. La llamada a la morena (iniciada pelo verso «Morena me llaman») fala-nos de um noivado que, nalgumas versões, prenuncia uma viagem numa nau, e aqui é perturbado pelo sonho da noiva adolescente de vir a casar com um príncipe. Já em La galana y la mar há um pano de fundo que é o dia do banho pré-nupcial; a letra parte da tradição pagã ibérica do banho num braço de mar, no qual a noiva é acompanhada pelas amigas solteiras; mas algumas versões remetem para a tradição islâmica de embelezamento no edifício dos banhos públicos, onde a noiva segue um longo roteiro de preparação estética, acompanhada por amigas, familiares, e músicos, antes de ser devolvida à casa dos pais.

Quanto à música, este é normalmente o aspecto mais recente das canções sefarditas recolhidas da tradição oral no século XX. Nos géneros profanos, e especialmente na canção de amor ou de entretenimento, o gosto melódico era muito permeável às tradições musicais circundantes. Não temos transcrições ou gravações de canções sefarditas anteriores a 1911; as primeiras recolhas sistemáticas foram feitas por Manuel Manrique de Lara no Mediterrâneo oriental e em Marrocos, e Alberto Hemsi, apenas no Oriente. Desenganem-se, pois, aqueles que julgam encontrar na canção sefardita sonoridades típicas da época da expulsão; a renovação da tradição, condição para a sua continuidade ao longo das gerações, passou sempre pela actualização musical. Daqui se conclui que Noa Noa está, do ponto de vista histórico, em excelente companhia. 

Manuel Pedro Ferreira

PROJECTS
CONCERT PROGRAMMES

SEPHARAD:
SEPHARDIC SONGS
IN LADINO

CD PALAVRICAS D'AMOR (2017)
CD DE LA MAR (2016)

 

”De la mar” offers a selection of Sephardic songs. These were remodelled in modern, creative fashion by Noa Noa, who intended to underline in this repertory its connection to Iberian culture. 

Song is a generic term; here, in fact, most songs are love songs; but there are also two wedding songs and a fragment of the narrative ballad La partida del esposo, starting “Por qué llorax blanca niña”. The adjective “Sephardic” refers, in a strict sense, to the Jewish Diaspora of Iberian origin: both the multitudes expelled at the end of the 15th century, and those forcibly converted to Christianity, or their descendents, who later left the Spanish Peninsula and embraced the Jewish religion. In short, these are traditional songs of a geographically dispersed Jewish population, yet with common Iberian roots.

The language of these songs is the “ladino” (or Judeo-Spanish) taken in its wider sense. It is a dialectical variety built upon Castilian as spoken around 1500, but with Aragonese and Portuguese influence and also words and turns of expression taken from the languages that were current where Sephardim established themselves (including the Arabic, the Albanese, the Servo-Croat, the Turkish and the Persian). Occasionally, there are even syntactical borrowings from the Hebrew. The “ladino”, spoken today by a minority of Sephardim, often reminds in its pronunciation the Portuguese rather than the modern Spanish, because Castilian in the Renaissance was in its sonority closer to Portuguese than it is today. 

The texts of the songs survived in multiple versions; since starting lines do not always coincide, scholars baptized with reference titles the more widely circulated texts: thus,  “A la una yo nací” is a version of Las horas de la vida, and “Durme, durme” corresponds to La hermosa durmiente. Some poems have an archaic form, modelled on medieval precedent; most of them, however, follow the conventions of Iberian poetry of the modern era, using quatrains (sometimes expanded with an extra, nonsensical line, as in “Hija mia, mi querida”). It is among the ballads (romances) that most archaic features can be found. The form comprising a distich plus short refrain (as in La galana y la mar) is older, however: in romance poetry it dates at the latest from c. 1200, when the first cantigas d’amigo surface in the historical record. Similarly old is the parallelism found in “Avrix mi galanica”, version of Todos son inconvenientes. 

In what concerns subject matter, wedding songs may use ideas of ancient stock and refer to social practices and expectations that no longer apply. La llamada a la morena (beginning “Morena me llaman”) talks of a bride that, in some versions, will eventually sail off in a nef, and here is upset by the typical girl’s dream of marrying a prince. The hidden background of La galana y la mar is the pre-nuptial bath; the lyrics draw on the Iberian pagan tradition of a social bath, with girl-friends, in a sea inlet; some versions also draw on the Islamic tradition of a long session of beauty care in the public bath, in the company of girl-friends, family and musicians, before the bride is returned by her following to her parents’ place. 

Finally, music is normally the most recent dimension of Sephardic songs gathered from oral tradition in the 20th century. In secular genres, and especially in love or entertainment songs, melodic taste was very permeable to the surrounding musical traditions. No recordings or transcriptions of Sephardic songs were made before 1911; the first significant efforts were carried by Manuel Manrique de Lara in the Eastern Mediterranean and in Morocco, and Alberto Hemsi in the East. Those who believe that in such songs a sound world from before 1500 can be found, may be disappointed. In order to be kept alive, tradition renews itself and music has been the main modernizing factor. One can conclude that from the historical point of view, Noa Noa are in excellent company. (translation: Manuel Pedro Ferreira)

Manuel Pedro Ferreira

 

PROJECTOS
PROGRAMAS DE CONCERTO

LÍNGUA

CD LÍNGUA, VOL.2 (2015)
CD LÍNGUA, VOL2 (2014)

 

Todas as línguas mudam com o tempo. Evoluem e adaptam-se aos usos inovadores das comunidades, às suas idiossincrasias e hábitos. A língua não pode ser entendida como uma entidade imutável, estanque, parada ou desenhada no tempo e pelo tempo. Ela é, pelo contrário, resultado de uma dinâmica imensa da mesma forma e com o mesmo fulgor da comunidade ou da humanidade que muda… vagarosa mas imparável.

Língua é o título do novo projecto Noa Noa dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, uma manta de sons “para além do Ebro” que resulta no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Este projecto viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade

PROJECTS
CONCERT PROGRAMMES

LÍNGUA*

CD LÍNGUA, VOL.2 (2015)
CD LÍNGUA, VOL2 (2014)

 

All language changes with time. Languages evolve and adapt themselves to the innovative use of their communities, their habits and idiosyncrasies. Language cannot be understood as a changeless and settled entity, drawn during Time and drawn by it. On the contrary, it is the result of huge dynamics , in the way acommunity or Humanity itself would do… slowly but relentlessly.

Língua is the title of the new project dedicated to the collective memory defined by the different Iberian cultures and languages, a plaid of sounds “beyond the river Ebro” resulting in the Portuguese, Castilian, Mirandese, Galician, Asturian, Basque or Catalan languages. This project goes from the most common to the most distinctive aspects in the History of the Iberian Culture. It explores the geographic, cultural and conceptual frontiers of tradition and ancestrally, along with contemporary and intercultural concepts. (translation: Tiago Cassola Marques/Diana Gonsalves)

* Língua = Language/Tongue

 

PROJECTOS
PROGRAMAS DE CONCERTO

BABEL or QUANDO FALAMOS TODOS A MESMA LÍNGUA

PROJECTO EDUCATIVO

 

O projecto "Babel" é uma encomenda Centro Cultural de Belém/Fábrica das Artes. Foi estreado, em 2015, no CCB tendo realizado uma digressão europeia no contexto do Festival Europeu Big Bang na Bélgica: Bruxelas (BOZAR), Antuérpia (DeSINGEL), Ghent (FLEMISH OPERA) e em França: Lille (OPERA DE LILLE).

...e depois da primeira torre construímos outra. Apesar das nossas diferenças – aquelas com que criámos os nossos mundos – acabámos por construir uma outra torre. A esta chamámos arte... e da confusão construímos beleza. Juntos, construímos uma nova torre que vai muito alto e que dá a volta ao mundo… nesta, falamos todos a mesma língua: a música... ou o som organizado. Esta é a importância da escolha entre a verdade e a mentira. Entre a luz e as trevas... Inspirados por estes sons organizados, que criámos a partir de uma ideia tanto emocional como intelectual, construímos a nossa própria banda sonora, desde o início dos tempos, inventando novas formas de fazer som agradável para encher os dias e as noites de outras cores... para nos entendermos. Prova disso é uma pequena jangada de pedra (cit. José Saramago) que fica para além do Ebro. Aqui falamos muitas línguas diferentes - mais de sete - mas, juntos, entendemo-nos cantando, tocando e dançando… Definida a oriente pelas montanhas dos Pirinéus e a norte, a sul e a ocidente pelo mar, a Península Ibérica, é uma imensa pequena torre... um lugar onde todos falamos línguas diferentes e onde todos falamos a mesma língua.

Ohne Musik ware das Leben ein lrrtum** 
(Sem musica, a vida seria um erro)

Filipe Faria, Lisboa 2015

PROJECTS
CONCERT PROGRAMMES

BABEL or WHEN WE ALL SPEAK THE SAME LANGUAGE

EDUCATIONAL PROJECT

 

The project "Babel" was commissioned by Centro Cultural de Belém/Fábrica das Artes (Portugal). It was premiered in 2015 at CCB with a European tour in the context o Big Bang Festival in Belgium: Brussels (BOZAR), Antwerp (DeSINGEL), Ghent (FLEMISH OPERA) and in France: Lille (OPERA DE LILLE).

...and after the first tower we built another. Despite our differences - those with which we have created our worlds - we eventually built another tower. To this we called art... and from confusion we built beauty. Together we built a new tower going too high and around the world ... in this one, we speak the same language: the music... or the organized sound. 
This is the importance between truth and falsehood. Between light and darkness. Inspired by these organized sounds that we created from a both emotional and intellectual program, we built our own soundtrack, since the beginning of time, inventing new ways to make nice sound to fill the days and nights of new colors ... to understand each other. Proof of this is a small stone raft* that is beyond the Ebro. Here we speak seven different languages but together we understand each other dancing and singing ... Bordered in the east by the Pyrenees Mountains and in the north, south and west by the sea, the Iberian Peninsula, is a huge small tower ... a place where we all speak different languages and where we all speak the same language. 

Ohne Musik ware das Leben ein lrrtum ** 
(Without music, life would be a mistake) 

* Jose Saramago (1922-201 O) 
**Friedrich Nietzsche (1844-1900) 

Filipe Faria, Lisboa 2015