Resta-nos festejar a estreia do duo NOA NOA, [Língua, Vol. 1, *****, Arte das Musas], formado pelos multi-instrumentistas Filipe Faria e Tiago Matias. Com um pé na música tradicional, com o outro na música antiga (medieval e não só) e com o coração aberto às músicas do mundo (ao lado de adufes, chocalhos, guitarra barroca, viola beiroa ou vihuela também se podem ouvir um udu ou uma flauta bansuri), os Noa Noa servem-nos uma filigrana, inesperada e em tamanho gigante, de canções antigas e tradicionais de quase toda a Península Ibérica (pela voz de Filipe Faria podem aqui ouvir-se temas em português, catalão, basco, castelhano, galego, asturiano e mirandês), interpretadas com um amor e uma sabedoria assombrosas.
— António Pires in BLITZ n.º105, Março 2015, Crítica *****
 
 

@ Bozar (Bruxelles, Belgique) © Filipe Faria 2015

@ Vlaamse Opera (Ghent, Belgique) © Filipe Faria 2015

@ Antiga Sé Idanha-a-Velha © Nuno Capelo CMIN 2016

Em suma, neste Noa Noa o bom gosto impera sem descanso, e por isso só me ocorre o topo da escala, umas 5 estrelas bem viçosas, para descrever o meu agrado (...) A meu ver são coisas destas que nos animam e fazem correr.
— João Almeida, Director Adjunto de Programas de Rádio (RTP)

Filipe Faria voz, adufe, bombo, chalumeau, viela, berimbau, melódica...
Tiago Matias tiorba, vihuela,
alaúde, guitarra barroca, guitarra romântica, colascione

 

@ Opera de Lille (France) © Filipe Faria 2015

Na justa fronteira entre o tradicional e o erudito, os Noa Noa, duo de Filipe Faria e Tiago Matias, estreiam-se com um disco surpreendente, que vagueia por territórios pouco explorados da música da península – a meio caminho entre Jordi Saval e o também excelente trabalho da sua filha Arianna.
— Manuela Paraíso in Jornal de Letras

@ Hamamatsu (Japan) © Filipe Faria 2016

@ Hamamatsu World Music Festival 2016 © HWMF 

O som dos Noa Noa parte de uma afinidade simples e eficaz entre os cordofones de Tiago Matias e a voz delicada de Filipe Faria. Perante esta base elementar constroem tudo o resto, com os mais variados tipos de instrumentos e efeitos.
— Manuela Paraíso in Jornal de Letras
Eu amo esse disco! (…) Esse é um grande, grande disco! (…) É absolutamente admirável. É um daqueles trabalhos que nos faz pensar em tudo o que andamos a desperdiçar na nossa história musical.

— João Gobern in “Hotel Babilónia”/Antena 1 (12/7/2014)
“Lingua, Vol. 1” é erudito e contemporâneo, antigo e moderno, arcaico e inovador. Aqui respira-se uma enorme cumplicidade entre dois multi-instrumentistas, respeita-se o silêncio, os espaços (do terreiro ao salão de baile) e a doçura ou a pujança dos instrumentos, sejam percussões de barro, flautas doces ou cordofones trovadorescos.
— Luís Rei in Crónicas da Terra - 1.º lugar TOP Música Tradicional/Folk 2014

Filmes

 

BABEL

BABEL © Filipe Faria 2015

BABEL © Filipe Faria 2015

Fundado por Filipe Faria e Tiago Matias em 2012 – antecipando o 110º aniversário da morte do pintor pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903) - Noa Noa procura explorar, em música, as fronteiras da liberdade criativa que os artistas da viragem do século XIX para o XX propunham alcançar.

A liberdade criativa que se vivia na Europa de então encontra paralelo na História da Música Ocidental do século XVIII no qual o músico era formado para saber cantar, tocar um ou mais instrumentos, improvisar, compor e dirigir. A tradição de resposta sem fronteiras ao apelo criativo é tão antiga como o Homem e volta a ter eco nas tendências recentes da moderna prática da Música Antiga com a constatação de que o músico no passado tinha uma formação multifacetada que contrasta com a super-especialização a que se chegou no século XX e XXI. A própria redescoberta dos instrumentos históricos e das suas técnicas de execução tem vindo a iluminar o passado, mas ao mesmo tempo tem servido de inspiração a compositores contemporâneos para novas obras, linguagens e estéticas.

É extraordinário: cheio de delicadeza mas sempre com energia, com uma espontaneidade que quase parece gravado num concerto ao vivo. Além do lado musical é também um maravilhoso arco iris do falar ibérico. (...) Adoro não apenas a minúcia dos meneios (dos sentimentos, estados de alma) na voz (...), mas também o permanente dedilhado tão bem medido, expressivo, das cordas. E depois o tempero da percussão (...) com um inesperado e irresistível bamboleio.
— João Almeida, Director Adjunto de Programas de Rádio (RTP)

Em Noa Noa, Filipe Faria e Tiago Matias assumem o papel antigo do músico multifacetado e poli-instrumentista bebendo tanto duma intensa experiência profissional de mais de uma década na área da Música Antiga como do gosto comum pelo risco e pela capacidade íntima da música.

De uma visão descomplexada e informal dos repertórios europeus para voz e alaúde, dos séculos XVI a XVIII, às músicas populares da Ibéria e da Europa com os cheiros e travos inevitáveis do torna viagem – marca de água da Europa pós aventura marítima – a música de Noa Noa assume uma construção moderna tendo como ponto de partida o diálogo essencial da voz com a multiplicidade de instrumentos antigos de corda pulsada.

Em 2014 Noa Noa lança o seu primeiro trabalho discográfico dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, uma manta de sons “para além do Ebro” que resultou no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Com o apoio do Ministério da Cultura (ex Secretaria de Estado da Cultura), da Direcção-Geral das Artes e da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova este projecto, intitulado “Língua (vol.1)”, viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade. Este trabalho esteve no primeiro lugar do TOP de vendas FNAC na área da Música Clássica/Música do Mundo/Jazz durante três meses tendo sido um dos discos mais vendidos em Portugal entre Julho e Novembro de 2014. A primeira edição esgotou em quatro meses estando a ser preparada a segunda edição.

Noa Noa afasta-se assim, com um dinamismo erudito, de outros projectos que trabalham a música tradicional, usando ferramentas opostas para evitar a sua cristalização.
— Manuela Paraíso in Jornal de Letras

Na Temporada de 2012/2013 Noa Noa apresentou-se em concerto em Idanha-a-Velha (Palácio Marrocos), Aveiro (Museu de Aveiro), Braga (Festival “Música nos Claustros”), Águeda (Fundação Dionísio PInheiro), Monsanto (Festival Internacional de Músicas Antigas, Fora do Lugar) com os convidados especiais Artur Fernandes (Danças Ocultas) e João Hasselberg (Luísa Sobral, “Whatever It Is You’re Seeking, Won’t Come In The Form You’ re Expecting”), etc…

Na mesma Temporada, Noa Noa é convidado para uma parceria artística na instalação “A Manta” de Cristina Rodrigues, peça icónica do Museu Rural para o Século XXI/21st Century Rural Museum/Idanha-a-Velha resultado da parceria com o projecto Design for Desertification DfD, Câmara Municipal de Idanha-a-Nova (CMIN), Manchester Metropolitan University, MIRIAD e Oralities Project/UE. Esta exposição esteve patente na Sé Catedral de Idanha-a-Velha, MUDE- Museu do Design e da Moda (Lisboa), Mosteiro dos Jerónimos/Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa), etc… Em 2014 esta instalação esteve patente na Machester Cathedral (Inglaterra) e no MAM/São Paulo (Brasil).

Em 2014 o grupo apresentou a digressão de lançamento do disco “Língua, vol.1” com concertos no Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova), Festival Fora do Lugar (Idanha-a-Nova) - com os convidados especiais Cardo-Roxo e Adufeiras de Idanha-a-Nova -, Centro Cultural de Cascais (Cascais) -  com os convidados Joana Espadinha e João Hasselberg -, Teatro Aveirense (Aveiro) - com Ana Bacalhau e José Pedro Leitão (Deolinda) e Miguel Calhaz -, Grande Auditório do Conservatório de Coimbra (Coimbra) com João Hasselberg -, e Festival Fora do Lugar (Monsanto, Idanha-a-Nova) - com João Hasselberg.

Uma coisa é certa: nunca se escutaram arranjos como estes de modas, cantos de devoção, de Tierras de Miranda (...), da Baixa Baixa (...) ou dos Açores. Venha rapidamente o Volume II de “Língua”.
— Luís Rei in Crónicas da Terra - 1.º lugar TOP Música Tradicional/Folk 2014

Em 2015 Noa Noa lança o segundo volume do projecto “Língua” - “Língua, vol.2” - e apresenta uma temporada de concertos em Portugal: CCB- Centro Cultural de Belém (Lisboa), ISA (Lisboa), FNAC Chiado (Lisboa), Teatro Joaquim Benite (Almada). Festival Sons de Almada Velha (Almada), Museu de Aveiro (Aveiro), Oliveira do Bairro (Quartel das Artes), etc... e uma digressão europeia na Flemish Opera (Ghent, Bélgica), Bozar (Bruxelas, Bélgica), DeSingel (Antuérpia, Bélgica) e Opéra de Lille (Lille, França) com o projecto “Babel, ou Quando falamos todos a mesma língua”, uma encomenda Centro Cultural de Belém/Fábrica das Artes em parceria com a Zonzo Compagnie (Bélgica) e integrado no Festival Europeu Big Bang.

Em 2016 lança o seu terceiro CD dedicado às canções sefarditas cantadas em ladino - “De la mar” - apresenta-se no Festival Lua Cheia, Arte na Aldeia (Coêdo, Vila Real), Antiga Sé de Idanha-a-Velha, BTL (Lisboa), Festival Páscoa Judaica e Cristã (Medelim), Festival Fora do Lugar (Idanha-a-Nova), etc... e uma digressão ao Japão (Hamamatsu World Music Festival) onde se apresenta no Main Hall do ACT CITY...

Os Noa Noa saltitam nas fronteiras da música tradicional e erudita, utilizando línguas e dialetos, reconfigurando a música antiga com práticas modernas. Para isso recorrem a grande panóplia de instrumentos, que acompanham a voz mágica de Filipe Faria.
— Luís Pedro Cabral in Revista VISÃO

Em 2017 lança o seu quarto CD, o segundo volume do projecto dedicado às canções sefarditas em ladino.

Em parceria com a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova e a Arte das Musas, Noa Noa assume, no início de 2013, o estatuto de Artists-in-Residence neste concelho – com base na Aldeia Histórica de Idanha-a-Velha. Esta parceria concretiza-se na promoção de residências artísticas regulares que permitem olhar para o universo musical muito particular desta região raiana a partir de dentro, junto da população, dos músicos e artistas locais e dos seus espaços e hábitos.

No mesmo ano Noa Noa assume ainda o estatuto de projecto parceiro do Festival Fora do Lugar, Festival Internacional de Músicas Antigas.

O nome do ensemble é inspirado no inovador livro de Paul Gauguin de 1901 no qual o artista descreve os tempos passados em retiro criativo na Polinésia francesa, em especial no Tahiti. Envolto em polémica, tanto Gauguin como o seu Noa Noa são ainda hoje sinónimos de liberdade criativa.

Noa Noa é apoiado pelo Ministério da Cultura/Direcção-Geral das Artes e é representado pela produtora Arte das Musas

@ Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova) © Filipe Faria 2016

@ Hamamatsu (Japan) © Filipe Faria 2016

© Filipe Faria 2016

 
 
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Projectos Noa Noa

 

DE LA MAR

Canções Sefarditas em Ladino

”De la mar” oferece uma selecção de canções sefarditas; estas foram remodeladas de maneira criativa, assumidamente contemporânea, pelo projecto Noa Noa, que procurou acentuar neste reportório a sua ligação à cultura ibérica. 

Canção é um termo genérico: de facto temos aqui, sobretudo, canções de amor; mas também duas canções de boda e um fragmento do romance narrativo La partida del esposo, iniciado pelo verso «Por qué llorax blanca niña». O adjectivo «sefardita» remete, num sentido estrito, para a diáspora dos judeus de origem ibérica: quer os muitos expulsos no final do século XV, quer os convertidos à força ao cristianismo ou seus descendentes, que abandonaram depois a Península para retomar a religião hebraica. Em suma, trata-se de canções tradicionais de uma população judaica geograficamente dispersa mas com raízes ibéricas comuns.

A língua destas canções é o «ladino» em sentido genérico (ou judeo-espanhol). Trata-se de um linguajar cuja base é o castelhano de c. 1500, mas que incorpora influências aragonesas e portuguesas, e também termos e expressões oriundas das línguas correntes nas áreas onde os sefarditas se estabeleceram (incluindo o árabe, o albanês, o servo-croata, o turco e o persa). Ocasionalmente, há até construções sintácticas decalcadas do hebraico. O «ladino», falado aindahoje por uma minoria de sefarditas, pronuncia-se frequentemente de maneira mais próxima do português do que do castelhano moderno, porque a sonoridade do castelhano, no Renascimento, se distinguia menos do português do que na actualidade. 

Os textos das canções chegaram até nós em múltiplas versões; como nem sempre os seus inícios coincidem, os estudiosos baptizaram os textos de circulação mais alargada com um título de referência: assim, «A la una yo nací» é uma versão de Las horas de la vida, e «Durme, durme» corresponde a La hermosa durmiente. Alguns dos poemas têm uma forma arcaica, de matriz medieval, mas a maioria segue as convenções da poesia ibérica do período moderno, com uso de quadras (por vezes expandidas por uma exclamação intercalar semanticamente neutra, como em «Hija mia, mi querida»). É no romanceiro que os arcaísmos são mais notórios. Porém, maior antiguidade formal, do tempo das cantigas d’amigo (c. 1200) ou anterior, têm as estrofes de dois versos pontuadas por um refrão curto, como em La galana y la mar; sendo também dessa época o paralelismo usado em «Avrix mi galanica», versão de Todos son inconvenientes. 

No que concerne à temática, a canção de boda remete para imaginários antigos e para práticas e expectativas sociais hoje completamente caídas em desuso. La llamada a la morena (iniciada pelo verso «Morena me llaman») fala-nos de um noivado que, nalgumas versões, prenuncia uma viagem numa nau, e aqui é perturbado pelo sonho da noiva adolescente de vir a casar com um príncipe. Já em La galana y la mar há um pano de fundo que é o dia do banho pré-nupcial; a letra parte da tradição pagã ibérica do banho num braço de mar, no qual a noiva é acompanhada pelas amigas solteiras; mas algumas versões remetem para a tradição islâmica de embelezamento no edifício dos banhos públicos, onde a noiva segue um longo roteiro de preparação estética, acompanhada por amigas, familiares, e músicos, antes de ser devolvida à casa dos pais.

Quanto à música, este é normalmente o aspecto mais recente das canções sefarditas recolhidas da tradição oral no século XX. Nos géneros profanos, e especialmente na canção de amor ou de entretenimento, o gosto melódico era muito permeável às tradições musicais circundantes. Não temos transcrições ou gravações de canções sefarditas anteriores a 1911; as primeiras recolhas sistemáticas foram feitas por Manuel Manrique de Lara no Mediterrâneo oriental e em Marrocos, e Alberto Hemsi, apenas no Oriente. Desenganem-se, pois, aqueles que julgam encontrar na canção sefardita sonoridades típicas da época da expulsão; a renovação da tradição, condição para a sua continuidade ao longo das gerações, passou sempre pela actualização musical. Daqui se conclui que Noa Noa está, do ponto de vista histórico, em excelente companhia. 

Manuel Pedro Ferreira

[saber mais]

Língua

Todas as línguas mudam com o tempo. Evoluem e adaptam-se aos usos inovadores das comunidades, às suas idiossincrasias e hábitos. A língua não pode ser entendida como uma entidade imutável, estanque, parada ou desenhada no tempo e pelo tempo. Ela é, pelo contrário, resultado de uma dinâmica imensa da mesma forma e com o mesmo fulgor da comunidade ou da humanidade que muda… vagarosa mas imparável.

Língua é o título do novo projecto Noa Noa dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, uma manta de sons “para além do Ebro” que resulta no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Este projecto viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade

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Babel

ou Quando todos falamos a mesma língua

O projecto "Babel" é uma encomenda Centro Cultural de Belém/Fábrica das Artes. Foi estreado, em 2015, no CCB tendo realizado uma digressão europeia no contexto do Festival Europeu Big Bang em Bruxelas, Antuérpia, Ghent (Bélgica) e Lille (França)

...e depois da primeira torre construímos outra. Apesar das nossas diferenças – aquelas com que criámos os nossos mundos – acabámos por construir uma outra torre. A esta chamámos arte... e da confusão construímos beleza. Juntos, construímos uma nova torre que vai muito alto e que dá a volta ao mundo… nesta, falamos todos a mesma língua: a música... ou o som organizado. Esta é a importância da escolha entre a verdade e a mentira. Entre a luz e as trevas... Inspirados por estes sons organizados, que criámos a partir de uma ideia tanto emocional como intelectual, construímos a nossa própria banda sonora, desde o início dos tempos, inventando novas formas de fazer som agradável para encher os dias e as noites de outras cores... para nos entendermos. Prova disso é uma pequena jangada de pedra (cit. José Saramago) que fica para além do Ebro. Aqui falamos muitas línguas diferentes - mais de sete - mas, juntos, entendemo-nos cantando, tocando e dançando… Definida a oriente pelas montanhas dos Pirinéus e a norte, a sul e a ocidente pelo mar, a Península Ibérica, é uma imensa pequena torre... um lugar onde todos falamos línguas diferentes e onde todos falamos a mesma língua.

Ohne Musik ware das Leben ein lrrtum** 
(Sem musica, a vida seria um erro)

Filipe Faria, Lisboa 2015

 
 

Discografia

DE LA MAR (MU0117/2016)

Canções Sefarditas em Ladino

”De la mar” oferece uma selecção de canções sefarditas; estas foram remodeladas de maneira criativa, assumidamente contemporânea, pelo projecto Noa Noa, que procurou acentuar neste reportório a sua ligação à cultura ibérica. 

Canção é um termo genérico: de facto temos aqui, sobretudo, canções de amor; mas também duas canções de boda e um fragmento do romance narrativo La partida del esposo, iniciado pelo verso «Por qué llorax blanca niña». O adjectivo «sefardita» remete, num sentido estrito, para a diáspora dos judeus de origem ibérica: quer os muitos expulsos no final do século XV, quer os convertidos à força ao cristianismo ou seus descendentes, que abandonaram depois a Península para retomar a religião hebraica. Em suma, trata-se de canções tradicionais de uma população judaica geograficamente dispersa mas com raízes ibéricas comuns.

A língua destas canções é o «ladino» em sentido genérico (ou judeo-espanhol). Trata-se de um linguajar cuja base é o castelhano de c. 1500, mas que incorpora influências aragonesas e portuguesas, e também termos e expressões oriundas das línguas correntes nas áreas onde os sefarditas se estabeleceram (incluindo o árabe, o albanês, o servo-croata, o turco e o persa). Ocasionalmente, há até construções sintácticas decalcadas do hebraico. O «ladino», falado aindahoje por uma minoria de sefarditas, pronuncia-se frequentemente de maneira mais próxima do português do que do castelhano moderno, porque a sonoridade do castelhano, no Renascimento, se distinguia menos do português do que na actualidade. 

Os textos das canções chegaram até nós em múltiplas versões; como nem sempre os seus inícios coincidem, os estudiosos baptizaram os textos de circulação mais alargada com um título de referência: assim, «A la una yo nací» é uma versão de Las horas de la vida, e «Durme, durme» corresponde a La hermosa durmiente. Alguns dos poemas têm uma forma arcaica, de matriz medieval, mas a maioria segue as convenções da poesia ibérica do período moderno, com uso de quadras (por vezes expandidas por uma exclamação intercalar semanticamente neutra, como em «Hija mia, mi querida»). É no romanceiro que os arcaísmos são mais notórios. Porém, maior antiguidade formal, do tempo das cantigas d’amigo (c. 1200) ou anterior, têm as estrofes de dois versos pontuadas por um refrão curto, como em La galana y la mar; sendo também dessa época o paralelismo usado em «Avrix mi galanica», versão de Todos son inconvenientes. 

No que concerne à temática, a canção de boda remete para imaginários antigos e para práticas e expectativas sociais hoje completamente caídas em desuso. La llamada a la morena (iniciada pelo verso «Morena me llaman») fala-nos de um noivado que, nalgumas versões, prenuncia uma viagem numa nau, e aqui é perturbado pelo sonho da noiva adolescente de vir a casar com um príncipe. Já em La galana y la mar há um pano de fundo que é o dia do banho pré-nupcial; a letra parte da tradição pagã ibérica do banho num braço de mar, no qual a noiva é acompanhada pelas amigas solteiras; mas algumas versões remetem para a tradição islâmica de embelezamento no edifício dos banhos públicos, onde a noiva segue um longo roteiro de preparação estética, acompanhada por amigas, familiares, e músicos, antes de ser devolvida à casa dos pais.

Quanto à música, este é normalmente o aspecto mais recente das canções sefarditas recolhidas da tradição oral no século XX. Nos géneros profanos, e especialmente na canção de amor ou de entretenimento, o gosto melódico era muito permeável às tradições musicais circundantes. Não temos transcrições ou gravações de canções sefarditas anteriores a 1911; as primeiras recolhas sistemáticas foram feitas por Manuel Manrique de Lara no Mediterrâneo oriental e em Marrocos, e Alberto Hemsi, apenas no Oriente. Desenganem-se, pois, aqueles que julgam encontrar na canção sefardita sonoridades típicas da época da expulsão; a renovação da tradição, condição para a sua continuidade ao longo das gerações, passou sempre pela actualização musical. Daqui se conclui que Noa Noa está, do ponto de vista histórico, em excelente companhia. 

Manuel Pedro Ferreira

De la mar
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LÍNGUA, VOL.2 (MU0114/2015)

Todas as línguas mudam com o tempo. Evoluem e adaptam-se aos usos inovadores das comunidades, às suas idiossincrasias e hábitos. A língua não pode ser entendida como uma entidade imutável, estanque, parada ou desenhada no tempo e pelo tempo. Ela é, pelo contrário, resultado de uma dinâmica imensa da mesma forma e com o mesmo fulgor da comunidade ou da humanidade que muda… vagarosa mas imparável.

Língua é o título do novo projecto Noa Noa dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, uma manta de sons “para além do Ebro” que resulta no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Este projecto viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade

Língua, vol.2
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LÍNGUA, VOL.1 (MU0112/2014)

Todas as línguas mudam com o tempo. Evoluem e adaptam-se aos usos inovadores das comunidades, às suas idiossincrasias e hábitos. A língua não pode ser entendida como uma entidade imutável, estanque, parada ou desenhada no tempo e pelo tempo. Ela é, pelo contrário, resultado de uma dinâmica imensa da mesma forma e com o mesmo fulgor da comunidade ou da humanidade que muda… vagarosa mas imparável.

Língua é o título do novo projecto Noa Noa dedicado à memória colectiva definida pelas diversas culturas e línguas ibéricas, uma manta de sons “para além do Ebro” que resulta no português, castelhano, mirandês, galego, asturiano, basco ou catalão. Este projecto viaja entre o que há de mais comum e mais diferente na História da cultura ibérica explorando as fronteiras geográficas, culturais e conceptuais da tradição e da ancestralidade com a contemporaneidade ou a interculturalidade

Língua, vol.1
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