Fragmenta
 

A instalação fragmenta, de Filipe Faria e Sete Lágrimas, propõe novas partículas sonoras e visuais a partir dos fragmentos das sete Cantigas d’Amor de El-Rei D. Dinis (1261–1325) — nos 700 anos da sua morte —, preservadas, com música, no chamado Pergaminho Sharrer, “um fólio fragmentário oriundo de um cancioneiro perdido, escrito por volta de 1300”1, encontrado, em 1990, por Harvey Leo Sharrer no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, onde ainda se conserva.
Poucos vestígios musicais sobreviveram das canções profanas medievais galaico-portuguesas. Antes destes — preservados no “mais antigo documento conhecido com música profana de origem portuguesa”² —, apenas eram conhecidas as sete Cantigas de Amigo de Martim Codax (s. XIII) — também sete, como as sete Cantigas de D. Dinis —, seis delas com notação musical, descobertas em 1914 por Pedro Vindel, ocultas na guarda interior de um exemplar do De officiis de Cícero, manuscrito do século XIV, encadernado no século XVIII.
No seu livro Cantus Coronatus (2005), Manuel Pedro Ferreira (NOVA-FCSH) publicou a edição paleográfica da música — fragmentária — conservada no Pergaminho Sharrer a par de uma proposta de edição-reconstrução crítica destas melodias. Foi essa dupla dimensão — entre a “arqueologia” e a criação — que serviu de impulso a este ensaio sonoro e visual.


1 Ferreira, Manuel Pedro, Cantus Coronatus: 7 Cantigas d’El-Rei D. Dinis, De Musica 10, Kassel, Edition Reichenberger, 2005
2 idem

The installation fragmenta, by Filipe Faria and Sete Lágrimas, proposes new sonic and visual particles drawn from the fragments of the seven Cantigas d’Amor by King Dinis of Portugal (1261–1325) — marking the 700th anniversary of his death — preserved, with music, in the so-called Sharrer Parchment: “a fragmentary folio detached from a lost songbook, written around 1300,”¹ discovered in 1990 by Harvey Leo Sharrer at the Arquivo Nacional da Torre do Tombo, in Lisbon, where it remains today.
Few musical traces of medieval Galician-Portuguese secular song have survived. Prior to the discovery of these fragments — preserved in what is considered “the oldest known document containing secular music of Portuguese origin”² — only the seven Cantigas de Amigo by Martim Codax (13th century) were known — themselves numbering seven, like the Cantigas of King Dinis — six of them with musical notation. They were discovered in 1914 by Pedro Vindel, hidden inside the inner binding of a 14th-century manuscript copy of Cicero’s De officiis, rebound in the 18th century.
In his book Cantus Coronatus (2005), Manuel Pedro Ferreira (NOVA-FCSH) published both a paleographic edition of the fragmentary music preserved in the Sharrer Parchment and a proposal for a critical reconstruction of these melodies. It was this dual dimension — between “archaeology” and creation — that served as the impulse for this sonic and visual essay.

_
1 Ferreira, Manuel Pedro, Cantus Coronatus: 7 Cantigas by King Dinis of Portugal, De Musica 10, Kassel, Edition Reichenberger, 2005
2 idem


Instalação Installation

Convento dos Capuchos

Almada

Inauguração 11.07.2026 (17:00)
Patente de 11.07—3.10.2026

Convento de Cristo

Tomar

Inauguração 20.09.2025
Patente de 20.092026—19.02.2026

Catedral Idanha-a-Velha

Idanha-a-Nova

Inauguração 17.05.2025
Patente de 17.05—04.07.2025


Olhei os fragmentos de D. Dinis como partículas da intenção original, pequenas porções de matéria, de dimensões reduzidas — como as partículas subatómicas —, com uma carga semântica específica — partículas positivas, negativas ou partículas de intensidade —, unidades elementares de um conjunto — uma pequena parte de algo maior, uma fracção. Algo muito pequeno, de matéria ou de ideia.
As novas partículas musicais — criadas, com Sérgio Peixoto, para Sete Lágrimas (novamente o número sete) — nasceram tanto das linhas melódicas sobreviventes, fragmentárias, à distância de mais de 700 anos, como da proposta de reconstrução de Manuel Pedro Ferreira (Cantus Coronatus, 2005). A partir delas, propomos novos fragmentos dos fragmentos — dessas partículas pequenas, quase como as partículas subatómicas. Fragmentos dos fragmentos como novas partículas para novos sons.
E a fotografia em sais de prata, partículas de uma mesma paisagem — tempo a passar.
Estes foram os meus significados — literais, conceptuais...
fragmento s. m. 1. Parte partida ou separada de um todo que já não se vê ou ouve por inteiro. 2. Vestígio de algo maior, memória sobrevivente ao tempo, ao esquecimento ou à destruição. 3. Unidade autónoma de incompletude — diz pouco, mas sugere tudo. 4. Semente de uma obra futura, poderosa tanto pelo que oculta como pelo que revela.
fragmenta v. tr. e int. (forma poética... e rara) 1. (trans.) Reduzir algo a fragmentos; partir, quebrar, rasgar — voluntariamente ou por acidente.  2. (intrans.) Tornar-se fragmento; desfazer-se em partes, em sinais, em ecos. 3. (fig.) Reescrever a totalidade como estilhaço, como se a beleza maior residisse nas falhas. 4. Acto de libertar o sentido do peso da forma inteira.
Há muito que me interessa a ideia de fragmento — e de partícula — como interruptor e matéria para a criação; de aleatoriedade — que ocorre sem um padrão previsível ou uma causa determinante; de imprevisibilidade — ausência de ordem. De incorporação de elementos do acaso — da surpresa — na criação. Esta é mais uma tentativa. Um fragmento como os outros.

Filipe Faria
Idanha-a-Nova, Abril 2025

I regarded the fragments of King Dinis as particles of an original intention — small portions of matter, minute in scale — like subatomic particles — each with its own semantic charge: positive particles, negative particles, or particles of intensity — elementary units of a whole — a small part of something greater, a fraction. Something exceedingly small, whether of matter or of thought.
The new musical particles — created with Sérgio Peixoto for Sete Lágrimas (once again, the number seven) — emerged both from the surviving melodic lines, fragmentary across a distance of more than seven hundred years, and from Manuel Pedro Ferreira’s reconstruction proposal (Cantus Coronatus, 2005). From these, we propose new fragments of fragments — of those small particles, almost like subatomic particles. Fragments of fragments as new particles for new sounds.
And the silver salts of photography, particles of the same landscape — time passing.
These were my meanings — literal, conceptual...
fragment n. 1. A part broken or separated from a whole no longer seen or heard in its entirety. 2. A trace of something greater, a memory surviving time, oblivion, or destruction. 3. A self-contained unit of incompleteness — saying little, yet suggesting everything. 4. The seed of a future work, powerful both in what it conceals and in what it reveals.
fragmenta v. trans. and intrans. (poetic and rare) 1. (trans.) To reduce something to fragments; to break, shatter, tear — deliberately or by accident. 2. (intrans.) To become a fragment; to dissolve into parts, into signs, into echoes. 3. (fig.) To rewrite the whole as splinter, as though greater beauty resided in the flaws. 4. The act of releasing meaning from the weight of the complete form.
I have long been interested in the idea of the fragment — and of the particle — as both trigger and material for creation; in randomness — that which occurs without a predictable pattern or determining cause; in unpredictability — the absence of order; and in the incorporation of elements of chance — of surprise — into the creative act. This is another attempt. A fragment like the others.

Filipe Faria
Idanha-a-Nova, April 2025


Filipe Faria

conceito original | original concept
ensaio sonoro | sonic essay
fotografia | photography

Sete Lágrimas

Filipe Faria + Sérgio Peixoto
música [novas partículas] | music [new particles]

Filipe Faria voz | voice — sulittu — flauta | recorder — viola de mão — viela | vielle — adufe
Sérgio Peixoto voz | voice


Um projecto A project by Arte das Musas
Apoio Support República Portuguesa - Cultura | Direção-Geral das Artes
Com a parceria In partnership with Município de Idanha-a-Nova UNESCO Creative City of Music
Acolhimento Hosting partners Câmara Municipal de Almada — Convento dos Capuchos | Convento de Cristo Tomar
Agradecimento Acknowledgment Manuel Pedro Ferreira CESEM - NOVA FCSH | Centro de Estudos em Música | Centre for Music Studies


Guia da exposição
Exhibition guide


Fotografias

fragmenta na Antiga Sé de Idanha-a-Velha 17 Maio a 4 de Julho 2025


fragmenta no Convento de Cristo de Tomar 20 Setembro 2025 a 19 Fevereiro 2026


fragmenta no Convento dos Capuchos de Almada 4 Julho a 3 Outubro 2026

Brevemente… Coming soon…


Álbum