Palavricas d'amor

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MU0118 CD Noa Noa - Palavricas d'Amor (2017) FRONT QUADRADA COM MARGEM.png
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Palavricas d'amor

10.00

NOA NOA

FILIPE FARIA

Voz | Voice
Viela medieval | Medieval Fiddle
Tombak
Vassouras | Broomsticks
Berimbau | Jew's harp
Palmas | Handclaps
Clavas | Claves
Adufe
Guizos | Foot bells
Ovos | Egg shaker
Pífaro | Tin whistle
Pandeiro | Tambourine
Caxixi
Bombo | Bass drum
Bodhran
Xiao
Reco-reco

TIAGO MATIAS

Guitarra romántica | Romantic guitar
Alaúde | Lute
Colascione
Saz

 

01 Durme, durme hermozo hijico 4'51
02 No vo comer ni vo beber 3'17
03 En la mar hay una torre 4'43
04 Lavava y suspirava 4'02
05 Para qué quero yo más bivir 2'31
06 Don Amadí 3'05
07 Secretos quero descuvrir 5'05
08 Esta montaña d'enfrente 3'25
09 Mi suegra la negra 4'50

 

PROJECTO CANCIONEIRO SEFARDITA

“O contributo dos judeus portugueses para a História de Portugal não se resume a paginar a cronologia do país. Vasta e enorme, marcante e gloriosa, intensa e interveniente, a amplitude da prestação, justamente, alteado património, prossegue a influir e a inspirar o que construímos em Filosofia, em Cultura e em Ciência”.  Miriam Assor, Judeus ilustres de Portugal, 2014

Perguntar quando chegaram os Judeus ao território português é uma questão sem resposta. Sabemos apenas que chegaram à Península Ibérica ou sefarad numa das suas múltiplas diásporas com registos desde os sécs. II-III. A sua presença entre nós está comprovada por duas lápides encontradas no Algarve (Lagos), datadas do séc. VI, pelas referências escritas datadas do século VIII-IX em Coimbra, e uma lápide latina com menorah  a evocar a sepultura de um seguidor de Moisés em Mértola, que poderá fazer recuar a presença dos Judeus ao século V.

Durante o período muçulmano, os judeus sefarditas dispersaram-se pelo território, sobretudo a sul do Douro, potenciando o intercâmbio cultural no seio da península ibérica.

No Portugal de outrora os judeus dependiam do Rei, que através de cartas de privilégio concedia a permissão de residir, trabalhar, negociar, exercer um ofício, seguir a sua religião, ser julgado pela sua lei (o Talmud) e ser sepultado segundo o seu ritual.

A actividade de artesãos e negociantes obrigava-os a deslocações por todo o reino, do que as cartas de foral concedidas aos concelhos dão testemunho. Alguns constituíram uma elite cortesã, como Ibn Yahia ou Negro, almoxarifes-mor do Reino. É nesta família que D. Afonso III, em finais do século XIII, vai escolher o rabi-mor, cargo que nela permaneceria ao longo de gerações até meados do séc. XV. Abraão Negro que era também físico do rei, foi o último representante do cargo

As comunidades de judeus organizavam-se em comunas, cujo centro era o complexo formado pela sinagoga, casa de oração, câmara de vereação, tribunal e escola, sob a direcção de rabis nomeados pelo rei a título vitalício. Em meados do século XIV os rabis passaram a ser eleitos, assim como os homens bons da câmara da vereação da comuna, traduzida num micro concelho judaico dentro do concelho cristão.

A comuna dependia da autorização régia, e por vezes, do bispado, para erguer uma nova sinagoga ou alargar a existente, sendo obrigada a pagar o dízimo ou outro tributo acordado à igreja.

Até ao séc. XIV, as judiarias apresentavam uma centralidade urbana ditada pelo seu papel nos sectores administrativo e comercial. Posteriormente o crescimento económico da burguesia cristã acentuou rivalidades e antagonismos que, agravados pelas pestes, exacerbou ódios e conduziu ao recolhimento das comunidades judaicas ou à sua transferência para zonas periféricas delimitadas.

Em finais do século XV, aquando do édito de expulsão dos judeus do reino de Portugal (Dezembro de 1496), a maior parte dos concelhos tinha a sua comuna ou a sua judiaria, apesar de nem todas possuírem rabi e câmara de vereação.

Pressionado pelos Reis Católicos, mas consciente que não podia perder esta força intelectual e económica, D. Manuel desenvolveu uma estratégica da conversão e baptismo forçados, proibindo as inquirições aos cristãos-novos durante 20 anos. Sinal de adaptação, ganharam mobilidade, tanto geográfica, como social, misturando-se com os cristãos-velhos e chegando a ingressar na nobreza, nas ordens militares e na universidade. Mas ser cristão-novo significava viver no medo e na desconfiança, mesmo quando as leis, como o Perdão Geral de 1605, pareciam abrir horizontes.

No que se refere à Beira Interior, pertencem a D. Dinis as mais antigas referências a comunas de judeus.

Até ao séc. XV a informação sobre a população judaica residente neste território é escassa, excepção feita à Guarda, cujas casas da judiaria pertenciam ao rei, e Trancoso pelo poder económico detido pela comuna. Relativamente à região de Idanha-
-a-Nova surgem menções ao pagamento de impostos por judeus ou às rendas das judiarias de Monsanto, Proença-a-Velha e Salvaterra.

Após o Édito de Expulsão de Castela, a população judaica aumentou consideravelmente na região, fixando-se junto à raia pela maior facilidade das relações comerciais, clandestinas, e familiares.

Os processos da Inquisição mostram-nos comunidades prósperas, onde o cristianismo escondia um judaísmo clandestino. Este relacionamento fechado, quer familiar, quer económico, permitiu-lhes viver numa atitude híbrida: exteriormente cristãos, baptizados, crismados e frequentadores da igreja e dos sacramentos, membros de confrarias, e, ao mesmo tempo, continuadores da tradição religiosa judaica no interior das suas famílias e casas.

No início do século XVII, regista-se um decréscimo populacional, devido a uma conjuntura de fome, epidemias, recrutamento forçado e viagens para o ultramar. A par disso, muitas localidades perderam pessoas que fugiram à Inquisição. São numerosos os processos levantados aos moradores do Fundão, Covilhã, Guarda, Idanha-a-Nova, Penamacor e Castelo Branco. No concelho de Idanha-a-Nova, em 1631, foram arrolados para pagamento do juro do Perdão Geral mais de 75 cristãos-novos moradores em Idanha-a-Nova, Monsanto, Proença-a-Velha, Medelim, Salvaterra e Segura. A absolvição e o perdão, que teoricamente eram concedidos aos confitentes, rapidamente se transformavam numa longa tortura para todos (confessos, denunciados e denunciadores).

As tensões e ódios agitaram o seio dos cristãos-novos e as denúncias atiraram famílias inteiras para o cárcere e para a miséria. Muitos idanhenses tentaram refazer a vida fora do país.

Destacamos a família de Diogo Nunes Ribeiro, cristão-novo, nascido em Idanha-
-a-Nova em 1668, médico no Mosteiro dos Dominicanos em Lisboa. Acusado de judaísmo, que confessou sob tortura, foge para Londres. Mudou o seu nome para Samuel. De lá emigrou para a América, sendo um dos fundadores da cidade de Savannah, na Geórgia. Diogo Nunes era tio materno de outra grande personalidade, Ribeiro Sanches, que seguiu as pisadas do seu tio e se tornou médico e grande intelectual. Nascido em Penamacor, era filho de Simão Nunes “Flamengo”, de Penamacor, e de Ana Nunes Ribeiro, de Idanha-a-Nova, abastados comerciantes cristãos-novos da Beira Baixa. Denunciado à Inquisição pela prática de judaísmo, conseguiu escapar ao cárcere, exilando-se para o resto da vida. Foi médico no Corpo Imperial dos Cadetes de São Petersburgo e de Catarina II da Rússia, tendo terminado os seus dias em Paris dedicando-se à ciência e ao pensamento. É um vulto maior da ciência e cultura europeias do século XVIII.

As investigações levadas a cabo corroboram a presença histórica das comunidades judaicas no território do Município de Idanha-a-Nova, das quais permanecem inúmeros vestígios, com destaque para a Rua da Judiaria em Medelim, possivelmente ligada à Judiaria de Monsanto. Trata-se de um património histórico e cultural multifacetado com um elevado potencial que abre novas linhas de investigação, cujas referências ainda são perceptíveis, merecendo ser salvaguardadas e valorizadas.

Entre estas, a música assume um lugar de especial relevo, pois são indubitáveis os traços da partilha feita ao longo do tempo. Sem fazer caso de fronteiras políticas e culturais, estamos aqui perante um património comum às tradições judaica, cristã e muçulmana. Um legado que serve de suporte à proposta do projecto Noa Noa, que chega até nós num eco magistral do esplendor das três culturas peninsulares.

Patrícia Dias e Paulo Longo Município de Idanha-a-Nova | Divisão de Cultura (O Município de Idanha-a-Nova integra a Rede das Judiarias de Portugal desde 2014)

 

SEPHARDIC SONGS PROJECT

“The Jews’ contribution to the history of Portugal cannot be boiled down to listing the country’s chronology. Vast and enormous, striking and glorious, intense and participatory, its abundance and its exalted legacy continue, and rightly so, to influence and inspire everything we create in philosophy, in culture and in science.”  Miriam Assor, Illustrious Jews of Portugal, 2014

The question of when the Jews arrived on Portuguese soil is one that has no answer. We know only that they reached the Iberian Peninsula, or sefarad, in one of the many diaspora recorded since the 2nd and 3rd centuries. Their presence among us has been confirmed by two tombstones found in the Algarve region (Lagos), dating from the 6th century, by written references dating from the 8th - 9th century in Coimbra, and a Latin tombstone with menorah, evoking the burial of a follower of Moses in Mértola, suggesting that the presence of Jews goes back to the 5th century.

During the Muslim period, Sephardi Jews spread throughout the land, in particular to the south of the river Douro, allowing for cultural exchange in the heart of the Iberian Peninsula.

In Portugal in those days, Jews were dependent on the king who, through letters of privilege, could grant permission to live, work, do business, perform a trade, follow their religion, be judged by its law (the Talmud) and be buried according to its rituals.

The activity of artisans and merchants made it necessary for the Jews to move throughout the kingdom, as the charter documents granted to the municipalities confirm. Some formed a courtly elite, such as Ibn Yahya or Negro, the king’s chief tax collector. It was from this family that King Afonso III would choose, at the end of the 13th century, its chief rabbi, a post that would remain in the family for generations until the mid-15th century. Abraham Negro, who was also the king’s physician, was the last holder of the position.

The Jewish communities organised themselves into communes, at the centre of which was the complex formed by the synagogue, house of prayer, council chamber, court and school, under the guidance of rabbis appointed by the king for life. In the mid-14th century, rabbis came to be elected, as were the good men of the commune’s council chamber, forming a Jewish micro-municipality within the Christian municipality.

The commune depended on royal authorisation, and at times that of the bishopric, in order to construct a new synagogue or extend the existing building, being forced to pay a tithe or another kind of tax to the church.

Until the 14th century, the Jewries boasted an urban centrality dictated by their role in the administrative and commercial sectors. Later, the economic growth of the Christian bourgeoisie highlighted rivalries and antagonisms that, aggravated by the plagues, exacerbated hatreds and led to the seclusion of Jewish communities or their transfer to delimited peripheral zones.

At the end of the 15th century, at the time of the edict of the expulsion of the Jews from the kingdom of Portugal (December 1496), most municipalities had a commune or Jewry, despite not all of them having a rabbi and council chamber.

Under pressure from the Catholic Kings, but aware that he could not lose this intellectual and economic dynamism, King Manuel developed a strategy of forced conversion and baptism, prohibiting inquiries into the New Christians for 20 years. A sign of adaptation, they gained mobility, both geographic and social, mixing with the Old Christians and managing to enter the nobility, military orders and the university. But being a New Christian meant living in fear and mistrust, even when the laws, such as the General Pardon of 1605, appeared to broaden horizons.

In terms of the region of Beira Interior, the oldest references to Jewish communes relate to King Dinis. Until the 15th century, there is little information on the Jewish population resident in this area, with the exception of Guarda, where the houses of the Jewry belonged to the king, and Trancoso, because of the economic power within the commune. As for Idanha-a-Nova, there are mentions of payment of taxes by Jews and the rents of the Jewries of Monsanto, Proença-a-Velha and Salvaterra.

After the Edict of Expulsion from Castile, the Jewish population increased considerably in the region, settling close to the border because of the greater ease of commercial, clandestine and family relations.

The proceedings of the Inquisition show us prosperous communities, where Christianity hid a clandestine Judaism. This closed relationship, whether familial or economic, allowed them to live a hybrid existence: externally Christian, baptised, confirmed and attendees of the church and the sacraments, members of brotherhoods, and, at the same time, continuing the Jewish religious tradition within their families and houses.

At the start of the 17th century, a decrease in population is recorded due to a combination of hunger, epidemics, forced recruitment and overseas travel. At the same time, many areas lost residents who fled the Inquisition. Many proceedings were raised against the residents of Fundão, Covilhã, Guarda, Idanha-a-Nova, Penamacor and Castelo Branco. In the municipality of Idanha-a-Nova, in 1631, more than 75 residents of Idanha-a-Nova, Monsanto, Proença-a-Velha, Medelim, Salvaterra and Segura were listed for the payment of interest under the General Pardon. Absolution and pardon, which were theoretically granted to confessors, rapidly turned into long-

-winded torture for everyone (confessors, denouncers and those denounced).

Tensions and hatreds agitated the heart of the New Christians and denunciations threw entire families into prison and into poverty. Many from Idanha-a-Nova attempted to remake their lives outside the country.

Take, for example, the family of Diogo Nunes Ribeiro, a New Christian, born in Idanha-
-a-Nova in 1668, a doctor in the Dominican Monastery in Lisbon. Accused of Judaism, which he confessed under torture, he fled to London. He changed his name to Samuel. From there, he emigrated to America and came to be one of the founders of the city of Savannah, in Georgia. Diogo Nunes was the maternal uncle of another great character, Ribeiro Sanches, who followed in his uncle’s footsteps and became a doctor and a great intellectual. Born in Penamacor, he was the son of Simão Nunes, “the Flemish” of Penamacor, and Ana Nunes Ribeiro, of Idanha-a-Nova, wealthy New Christian merchants from Beira Baixa. Denounced to the Inquisition for the practice of Judaism, he managed to escape prison, spending the rest of his life in exile. He was a medic in the Imperial Cadet Corps of St. Petersburg and of Catherine II of Russia, and spent his final days in Paris, devoting himself to science and thought.  He is a figure of great importance in European science and culture of the 18th century.

The research carried out corroborates the historic presence of Jewish communities around the municipality of Idanha-a-Nova, of which countless traces remain, in particular the Rua da Judiaria (Jewry Street) in Medelim, possibly linked to the Jewry of Monsanto. It is a multifaceted historic and cultural legacy, with great potential for the opening of new lines of research, examples of which are still perceptible and merit being safeguarded and valued.

Among these examples, of particular importance is music, where the traces of generations of sharing are unmistakeable. With no thoughts of political or cultural boundaries, we are presented here with a heritage common to Jewish, Christian and Muslim traditions. A legacy that serves to support the proposal of the Noa Noa project, which comes to us in a magisterial echo of the splendour of the three peninsular cultures. translation: Kennistranslations

Patrícia Dias and Paulo Longo Municipality of Idanha-a-Nova | Culture Department (The Municipality of Idanha-a-Nova integrates the Portuguese Network of Jewish Quarters since 2014)

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