Projecto Elvas
The Elvas Project
Hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas (séc. XVI)
Hexalogy dedicated to the Cancioneiro de Elvas (16th century)
[Primeira Parte]
Volumes 1—3
As 65 canções profanas: vilancetes, cantigas, tercetos e outros
The 65 secular songs: vilancetes, cantigas, tercetos, and others
I—III
Segvda Parte
Volumes 4—6
Nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas
New music, by Filipe Faria and Sérgio Peixoto, for the 36 romances, glosas, vilancetes and cantigas
I—III
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Segundo volume da hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas, manuscrito português do terceiro quartel do século XVI (BME Ms. 11793/P-Em 11793). Dividido em duas partes, o projecto canta as 65 canções profanas conservadas no códice: vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outras formas poético-musicais (volumes 1 a 3) e propõe nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas que aí se encontram sem música (volumes 4 a 6).
Second volume of the hexalogy dedicated to the Cancioneiro de Elvas, a Portuguese manuscript from the third quarter of the 16th century (BME Ms. 11793/P-Em 11793). Divided into two parts, the project sings the 65 secular songs preserved in the codex: vilancetes (or villancicos), cantigas, tercets, and other musico-poetic forms (volumes 1 to 3) and proposes new music, by Filipe Faria and Sérgio Peixoto, for the 36 romances, glosas, vilancetes, and cantigas found there without music (volumes 4 to 6).
The Elvas Project, Vol. 2
Sete Lágrimas
2026
MU0149
LIVRO + CD
BOOK + CD
SETE LÁGRIMAS
Filipe Faria + Sérgio Peixoto
direcção artística
artistica direction
Filipe Faria voz, percussão voice, percussion
Sérgio Peixoto voz voice
Pedro Castro flautas, baixão recorders, bassoon
Tiago Matias viola de mão vihuela
The Elvas Project, Vol. 2
Aquella voluntad q̃ se á rendido
No piensẽ q̃ a d'acabar
Parti ledo por te ver
Azme Amor el mal q̃ puedes
Tu gitana q̃ adeuinas
Cuẏdados meus taõ cuidados
No veros ẏ dessearvos
Que dizen allá Paschual
Perdido polos meus olhos
Testou minha ventura
Con mi dolor ẏ tormẽto
Ia naõ podeis ser cõtentes
De vos y de mi q̃xoso
Que sẽtis coraçõ mio
Mirad q̃ negro amor, ẏ q̃ nonada
Señora bem poderey
El q̃ ama no descãsa
Naõ podem meus olhos veruos
Por amores me perdi
Despososse tu amiga
Quedo triste receloso
Mas deueis aquiẽ os sirue
Projecto Elvas
The Elvas Project
Hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas (séc. XVI)
Hexalogy dedicated to the Cancioneiro de Elvas (16th century)
[Primeira Parte]
Volumes 1—3
As 65 canções profanas: vilancetes, cantigas, tercetos e outros
The 65 secular songs: vilancetes, cantigas, tercetos,and others
I—III
Segv[n]da Parte
Volumes 4—6
Nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto,
para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas
New music, by Filipe Faria and Sérgio Peixoto,
for the 36 romances, glosas, vilancetes and cantigas
I—III
MU0149 2026 ℗ © Arte das Musas 2026 Ⓛ SPA 2026
Todos os direitos reservados All rights reserved
Um projecto \A project by
Arte das Musas
Com a parceria \In partnership with
Município de Idanha-a-Nova
\UNESCO Creative City of Music
Com o apoio \With the support
República Portuguesa - Cultura
Direção-Geral das Artes
Music Música
Sete Lágrimas
Media partner
RTP Antena 2
Album available disponível
Book Livro + CD + Streaming platforms
Website
artedasmusas.com/elvas
Tonmeister
Filipe Faria
Assistentes Assistants
Rita Santos, Luís Sequeira
Tradução livre Free translation
Filipe Faria, Inês Bettencourt da Câmara
Gravado em Recorded in Idanha-a-Velha, Portugal 2026
Min. Total 52:07
Edição Edition Arte das Musas
Parcerias Partnerships O Homem – Colectivo + Fora do Lugar - Festival Internacional de Músicas Antigas
Design gráfico Graphic design Filipe Faria
1ª Edição 1st edition Idanha-a-Nova 2026
ISBN 978-989-36322-4-6
Reservados todos os direitos do produtor fonográfico e do proprietário da obra gravada, proibidos a duplicação, o aluguer, o empréstimo e a utilização da gravação para execução pública e radiodifusão não autorizados. All rights of the phonographic producer and the owner of the recorded work reserved; unauthorised duplication, rental, lending, and use of the recording for public performance or broadcasting are prohibited.
O Cancioneiro de Elvas (Biblioteca Municipal de Elvas, Ms. 11793/P-Em 11793), manuscrito português do terceiro quartel do século XVI, descoberto cerca de 1928 na cidade de Elvas e publicado, pela primeira vez, em Coimbra, em 1940 (1), encontra-se dividido em duas partes: a primeira compreende um conjunto de sessenta e cinco canções polifónicas profanas — vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outros géneros poético-musicais —; a segunda compõe-se de trinta e seis romances, glosas, vilancetes e cantigas.
“Durante alguns dias vi e tornei a ver o pequeno códice, com música e letra, ao qual faltavam fôlhas no princípio e no fim, e por mais que indagasse, na minha modesta livraria musical, nada encontrei que levasse os meus olhos a deslumbrarem-se perante a descoberta extraordinária que então tinha feito.” (1)
De tamanho reduzido — 145 × 96 mm —, o códice original perdeu os primeiros trinta e nove fólios (e a sua música), bem como outros quatro (fóls. 50, 105, 107 e 109). A música apresenta-se “disposta tal como era usual na época: as diferentes vozes escritas por separado, no verso de uma folha e recto da seguinte, de modo que perante o livro aberto todos os executantes pudessem ler simultaneamente as suas partes”. (2)
“Todo o conteúdo do Cancioneiro elvense foi escrito por um só copista. Pelo cuidado posto na transcrição da música e do texto e pela perfeição admirável da caligrafia, mostra ter sido executado por mão de profissional.” (3)
A primeira parte do Cancioneiro é composta por “três camadas de reportório polifónico, distribuídas por quatro colecções: duas colecções de peças do reportório ibérico de c. 1500, respondendo maioritariamente à classificação de vilancetes; uma colecção de peças portuguesas, classificáveis em geral como cantigas, provavelmente da 1.ª metade do século XVI; e um grupo de composições de gosto italianizante de origem igualmente portuguesa, do terceiro quartel do século”. (4)
Entre as composições que integram a primeira parte do códice, é possível identificar vinte e quatro concordâncias musicais e trinta e três textuais, distribuídas por alguns dos mais importantes manuscritos da época: o Cancioneiro de Paris (Ms. Masson 56, École de Beaux-Arts, Paris); o Cancioneiro de Lisboa (Ms. C.I.C 60, Biblioteca Nacional de Lisboa); o Cancioneiro de Belém (Ms. 3391, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Lisboa) — que integram, a par do Cancioneiro de Elvas, a colecção de quatro cancioneiros portugueses do século XVI que chegaram até nós —; o Cancionero de Palacio (Ms. 1335, Real Biblioteca, Madrid); o Ms. Magl. XIX 107 bis (Biblioteca Nazionale Centrale, Firenze); o Cancionero de Segovia (Ms. mus. Archivo Capitular, Catedral de Segovia); ou o Cancionero de Barcelona (Ms. 454, Biblioteca Central de Barcelona). (5)
De notar que, nos cento e um textos e composições do Cancioneiro de Elvas — oitenta e dois em castelhano e dezanove em português —, não se encontram indicados os nomes dos respectivos autores ou compositores. Ainda assim, foi possível atribuir, na primeira parte do manuscrito, a autoria de sete composições a Juan del Encina (1469–c. 1529/30), Pedro de Escobar (c. 1465–
–depois de 1535) e Pedro de Pastrana (c. 1480–depois de 1559), e de doze textos a Garcí Sánchez de Badajoz (c. 1460–1526), Salazar el Hermitaño, Comendador Escrivá, Dom Afonso de Menezes (fl. primeira metade do século XVI), Juan del Encina e Dom Manuel de Portugal (c. 1520–1606). Na segunda parte, surgem novas atribuições textuais a muitos destes autores, com a inclusão de Pêro de Andrade Caminha (c. 1520–1589). (6)
“Durante o século XVI, e mesmo antes, a língua portuguesa era bem conhecida em Espanha, e, inversamente, muitos poetas portugueses escreviam frequentemente em castelhano. Além disso, o castelhano era uma língua em voga na corte portuguesa”. (7)
A frequência de textos não atribuídos sugere uma cultura de circulação paralela de composições e poemas, tanto de autores reconhecidos como de outros, anónimos — uma prática assente na partilha e na escuta, onde o valor da obra reside, muitas vezes, na sua ressonância emocional e na eficácia poética ou performativa. Este diálogo de línguas e autores ibéricos reflecte a permeabilidade cultural da Península no século XVI e inscreve-se num dos momentos de maior densidade estética e simbólica da sua história musical e literária. Nesse contexto, consolida-se um repertório onde a sofisticação formal se alia a uma expressividade intensa, revelando tanto a continuidade de práticas enraizadas como a assimilação de ideais humanistas.
Do ponto de vista formal, o vilancete (ou vilancico) — estrutura recorrente no manuscrito — organiza-se em torno de um mote (ou estribilho), seguido de coplas e voltas, numa disposição que favorece a variação melódica e reforça o efeito expressivo do conjunto poético. Os textos tratam, sobretudo, de temas amorosos e de lamento, mas incluem também alusões ao quotidiano, e, pontualmente, à sátira, num registo onde o lírico e o mundano convivem. A linguagem directa ou as repetições e o uso de expressões populares acentuam a proximidade com o universo performativo.
Mais do que repositório de poesia e música, o Cancioneiro de Elvas oferece um retrato das práticas criativas do seu tempo — práticas essas em que o anónimo dialoga com o letrado, o dramático com o quotidiano, e o culto com o popular. Testemunha de um mundo em transição, o manuscrito permite entrever a complexidade e a vitalidade da poética ibérica do Renascimento.
Depois de vinte e seis anos de visitas constantes ao Cancioneiro, Sete Lágrimas propõe mergulhar neste pequeno códice e fazer ouvir, numa hexalogia, toda a sua música... a que está escrita (volumes 1—3) e aquela que podia estar (volumes 4—6). É esta a nossa nova viagem.
Filipe Faria
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(1) Manuel Joaquim, O Cancioneiro Musical e Poético da Biblioteca Públia Hortênsia, Coimbra, 1940, p. 7
(2) Manuel Pedro Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, IPPC, Lisboa, 1989, p. VI
(3) Manuel Morais, Cancioneiro Musical d’Elvas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1977, p. VI
(4) Manuel Pedro Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, IPPC, Lisboa, 1989, p. VIII
(5) Concordâncias identificadas e sistematizadas em Manuel Joaquim (1940), Manuel Morais (1977), Gil Miranda (1987) e Manuel Pedro Ferreira (1989)
(6) Atribuições identificadas e sistematizadas em Joaquim (1940), Morais (1977), Miranda (1987) e Ferreira (1989)
(7) Gil Miranda, The Elvas Songbook, American Institute of Musicology, Neuhausen-Stuttgart, 1987, p. XIV
The Cancioneiro de Elvas (Biblioteca Municipal de Elvas, Ms. 11793/P-Em 11793), a Portuguese manuscript from the third quarter of the 16th century, was discovered around 1928 in the city of Elvas and first published in Coimbra in 19401. It is divided into two parts: the first comprises sixty-five secular polyphonic songs — vilancetes (or villancicos), cantigas, tercetos and other musico -poetic forms; the second contains thirty-six romances, glosas, vilancetes, and cantigas.
“For several days I saw and returned to see the small codex, with music and lyrics, which was missing folios at the beginning and end. However much I searched my modest music library, I could find nothing to match the extraordinary discovery I had just made.”
Small in format — 145 × 96 mm —, the original codex has lost its first thirty-nine folios (and the music they contained), as well as four others (fols. 50, 105, 107, and 109). The music is “laid-out in the manner customary at this time: the different voices written out separately on the verso of one folio and the recto of the following, such that performers standing in front of the open volume could read their parts simultaneously.”
“Everything in the Elvas Songbook was copied by one person. The care taken over the transcription of the music and texts, and the admirable perfection of the calligraphy, show that it was the work of a professional.”
The first part of the Cancioneiro comprises “three layers of polyphonic repertoire, distributed in four collections: two collections of pieces from the Iberian repertoire of c. 1500, corresponding generally to the classification vilancetes; a collection of Portuguese pieces, which can in general be classified as cantigas, probably from the first half of the 16th century; and a group of Italianate compositions likewise of Portuguese origin, from the third quarter of the century.”
Among the compositions in this first section, twenty-four musical concordances and thirty-three textual ones can be found in some of the most important manuscripts of the time: the Cancioneiro de Paris (Ms. Masson 56, École des Beaux-Arts, Paris); the Cancioneiro de Lisboa (Ms. C.I.C 60, Biblioteca Nacional de Lisboa); the Cancioneiro de Belém (Ms. 3391, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Lisbon) — which, together with the Cancioneiro de Elvas, form the corpus of four extant Portuguese songbooks of the 16th century —; the Cancionero de Palacio (Ms. 1335, Real Biblioteca, Madrid); the Ms. Magl. XIX 107 bis (Biblioteca Nazionale Centrale, Florence); the Cancionero de Segovia (Ms. mus. Archivo Capitular, Catedral de Segovia); and the Cancionero de Barcelona (Ms. 454, Biblioteca Central de Barcelona).
It is worth noting that the one hundred and one texts and compositions in the Cancioneiro de Elvas — eighty-two in Spanish (Castilian) and nineteen in Portuguese — are presented anonymously, with no indication of their authors or composers. Nonetheless, it has been possible to attribute, in the first part of the manuscript, seven compositions to Juan del Encina (1469–c. 1529/30), Pedro de Escobar (c. 1465–after 1535), and Pedro de Pastrana (c. 1480–after 1559), and twelve texts to Garcí Sánchez de Badajoz (c. 1460–1526), Salazar el Hermitaño, Comendador Escrivá, Dom Afonso de Menezes (fl. first half of the 16th century), Juan del Encina and Dom Manuel de Portugal (c. 1520–1606). In the second part, further textual attributions emerge to many of these authors, with the inclusion of Pêro de Andrade Caminha (c. 1520–1589).
“During the 16th century and even before, the Portuguese language was well known in Spain, and conversely many Portuguese poets often wrote in Spanish. Furthermore, Spanish was a fashionable language at the Portuguese court.”
The frequency of unattributed texts suggests a culture of parallel circulation of compositions and poems, by both recognised and anonymous authors — a practice grounded in sharing and listening, where the value of the work often lies in its emotional resonance and poetic or performative potency. This dialogue among Iberian languages and authors reflects the cultural permeability of the Peninsula in the 16th century and belongs to one of the most symbolically and aesthetically dense moments in its musical and literary history. Within this context, a repertoire emerges where formal sophistication is matched by expressive intensity, revealing both the continuity of rooted traditions and the assimilation of humanist ideals.
From a formal perspective, the vilancete (or villancico) — a recurring structure in the manuscript — is organised around a mote (or refrain), followed by coplas and voltas, in a layout that fosters melodic variation and enhances the expressive effect of the poetic whole. The texts primarily address themes of love and lament, while also including references to everyday life and, occasionally, to satire, in a register where the lyrical and the worldly coexist. The direct language, the use of repetition, and popular expressions enhance the proximity to a performative universe.
More than a repository of poetry and music, the Cancioneiro de Elvas offers a portrait of the creative practices of its time — practices in which the anonymous speaks to the erudite, the dramatic to the everyday, the refined to the popular. A witness to a world in transition, the manuscript allows us to glimpse the complexity and vitality of Iberian poetics during the Renaissance.
After twenty-six years of repeated visits to the Cancioneiro, Sete Lágrimas proposes to delve into this small codex and bring to life — in a hexalogy — all its music: that which is written (volumes 1–3) and that which might have been (volumes 4–6). This is our new journey.
Filipe Faria
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(1) Manuel Joaquim, O Cancioneiro Musical e Poético da Biblioteca Públia Hortênsia, Coimbra, 1940, p. 7
(2) Manuel Pedro Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, IPPC, Lisbon, 1989, p. XXVI
(3) Manuel Morais, Cancioneiro Musical d’Elvas, Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1977, p. XIII
(4) Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, p. XXVIII
(5) Concordances identified and systematised by Manuel Joaquim (1940), Manuel Morais (1977), Gil Miranda (1987), and Manuel Pedro Ferreira (1989)
(6) Attributions identified and systematised by Joaquim (1940), Morais (1977), Miranda (1987), and Ferreira (1989)
(7) Gil Miranda, The Elvas Songbook, American Institute of Musicology, Neuhausen-Stuttgart, 1987, p. XIV
